A tediosa vida dos seres de mentes cinza

E tudo ficou cinza.

Gabriel não acreditava no que estava acontecendo. O seu mundo agora era cinza. As cores sumiram e tudo que ele via era de uma apatia melancólica. Não conseguia mais discernir o branco do negro; logo ele que fazia questão de lançar um olhar de asco a tudo que era preto e tivesse vida. As árvores perderam o verde da esperança e o asfalto quente também ficou cinza.

Gabriel pensou: seria melhor ver tudo cinza ou ficar cego ? O dilema o fez lembrar de Saramago, no seu Ensaios... E lembrou do caos social criado pela cegueira generalizada. Mas o cego consegue imaginar, criar um mundo de cores através da sua imaginação. Já eu, que vejo tudo cinza, não tenho essa capacidade de sentidos.

Seria essa visão do todo cinza somente restrita à cidade, ao local ? E Gabriel resolveu viajar, sair para outras paragens. Foi a capital e lá o cinza era muito grande, apesar dos pequenos pontos de verde e vermelho. Viajou ao grande centro industrial e tudo era cinza. Não existiam mais desenhos e os muros eram de um cinza agressivo.

O tedioso Gabriel voltou para seu estado outrora verde e descobriu, aos poucos, que não se tratava de um daltonismo, mas de um tipo de cegueira: o cinza estava no sua mente, na sua forma de olhar o mundo e as pessoas. O cinza estava nos seus sentidos, no mais cruel preconceito e na intolerável maneira de tratar outros seres humanos. Gabriel era cinza e de uma crise aguda se tornou invisível no seu mundo.


Lúcio Carril

Sociólogo

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