A rotatividade do peru

Defensor do financiamento exclusivamente público dos partidos e das campanhas eleitorais, não posso lisonjear debates e propostas distanciadas de aspectos importantes do fenômeno. Como a grande maioria dos brasileiros, entendo necessário assegurar todos os meios disponíveis para fazer das eleições periódicas exercício renovado de aperfeiçoamento do sistema político que Churchill dizia ser o pior, salvo todos os demais. Lembro vir repetindo quase à exaustão que o dinheiro de empresas ou organizações quaisquer que sejam, e pessoas físicas, se um centavo ou um bilhão de reais, bastaria para caracterizar o crime eleitoral. E sofrer as penalidades prescritas. A disputa relativa ao montante reservado pelo orçamento da União mal esconde a depreciação da ideia central – a suposta manutenção da democracia – e, em favor de outros objetivos. Por isso, o debate e a mobilização não se travam com os olhos postos na verdade das urnas e na rotatividade do poder, uma das vantagens a serem suficiente e permanentemente valorizadas. Quanto às urnas, tem-no dito melhor o Ministro Luiz Roberto Barroso. É preciso, pelo menos nesta oportunidade, de novo destacar o comprometimento de um dos pilares da democracia, qual seja a probabilidade de o poder ser exercido segundo a livre manifestação do eleitorado. Em suma: a rotatividade que faz a minoria de hoje ser maioria amanhã. Sem traumas, sem rancor e ódio, sem atropelos como os que se supõem em fase avançada de elaboração. Aqui, não há como ser simpático à forma de distribuição dos recursos, tenham o tamanho que tiverem, entre as siglas aquinhoadas. A legitimidade do alegadamente exagerado elenco de partidos pode ser objeto de outra discussão, alheia ao conteúdo e objetivo deste texto. Parece-me, assim, que a todos os partidos corresponderá a mesma fatia do bolo. Comprovada pelo TSE sua legitimidade e sua legalização perante a Justiça Eleitoral, tudo o mais conclui-se com mera operação matemática. O total dos recursos, dividido pelo número de siglas aptas à disputa do poder, dá o resultado buscado. Da forma e segundo os critérios hoje adotados, quem tem mais receberá mais; quem tem menos, menos receberá. E, no final, acaba-se por invalidar uma das maiores virtudes democráticas – a possibilidade de reduzir a manutenção dos mesmos grupos no poder. Nem falo das vantagens do enriquecimento da sociedade, já em si complexa e variada, tantos são os segmentos que a integram. Resumo: com as atuais formas e critérios de repartição do bolo financeiro, sempre serão os mesmos os comensais privilegiados. E a tal rotatividade vai pros quintos do inferno. Ponham fogo nisso! O fogão é aceso, arde a cozinha em chamas e o peru apenas se embriaga.

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