A Razão da primavera

É verdade: sou um romântico. E não pretendo abrir mão disso que considero uma qualidade humana.

Escrevo em resposta àqueles que pensam estar desqualificando meu discurso me chamando de romântico.

O fazem tendo como medida a velha ideia do domínio absoluto da razão, esta senhora dizimadora de sonhos e beleza humana.

Cresci ouvindo essa conversa de que devemos nos instrumentalizar da racionalidade para acertar as coisas; que está na razão o recurso da verdade e o aproveitamento da experiência. E que tudo que fugir ao raciocínio lógico é temerário e de consequência duvidosa.

Aí fui crescendo e procurando dialogar com as várias razões que nos cercam. Na ciência, desfiz minhas crenças religiosas. Na filosofia, vi a força do ethos. Na religião descobri a positividade dos dogmas. E mesmo no senso comum extraí algum tipo de razão instrumental.

Quando achei que tinha descoberto uma forma de entender e mudar o mundo descobri que todas as razões, e até mesmo a mais soberba delas, foram e são as responsáveis pela construção do mundo que temos, desamparado de ternura e de romantismo.

A razão não só profanou mentes e convicções, como destruiu possiblidades de diálogo com valores humanos imprescindíveis para edificação de uma humanidade desenvolvida e plena.

Foi com a razão que se fizeram duas guerras mundiais e no seu berço se viu a escravidão resistir. Foi na razão que a bomba atômica caiu sobre Hiroshima e Nagasaki. Foi em nome da razão que a opressão do capital prosperou, arrancando a carne de idosos e crianças.

Não. Não é essa a razão que um dia iluminou pensadores e chegou a nutrir a esperança de um mundo mais fraterno.

Sigo romântico, sim, com muito orgulho e vontade de mudança, mas não me venha dizer que a razão que você defende nos fez melhor ou socializou bens e qualidade de vida.

Se houver uma razão de vida e esperança, que ela seja a da primavera.


Lúcio Carril

Sociólogo

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