A priori

Reservado quanto à lei de Murphy, nem sempre espero que o pior aconteça. Alguns verão aí influência direta de meu alegado otimismo incorrigível. Pode até ser. Penso, porém, que a vida só não ensina aos que não querem ou não podem aprender. Nestes, condições pessoais, tanto quanto sociais, podem impedir o sempre saudável aprendizado. A exclusão se dá, portanto, à revelia do que a sofre. A outra hipótese recai na opção por não aprender. Várias são as razões desta escolha, diante do dilema entre a escuridão e a claridade. Compreensível entre os animais inferiores, essa constatação perde o sentido, se admitimos ser a vontade, não o instinto, o orientador da ação humana. Não é próprio do gato enxergar melhor durante o dia, como não é estranho o escorpião ferrar quem, transportando-o nas costas, o salva do afogamento. É da índole deles, conforme as leis da natureza, agir assim. Até aonde vai minha indesejável ignorância, não posso afirmar que gatos e escorpiões saibam, cultivem e se valham de juízos de valor, antes de sair à cata de alimento. Cheguei ao ponto. Desacreditar totalmente da lei de Murphy, neste particular – e trágico – momento de nossa história corresponderia a nada ter aprendido durante quase oito décadas de vida. Desde muito cedo atenta e entregue ao permanente aprendizado. Afinal de contas, os que reivindicam o papel de agentes da história e redatores de sua própria biografia não se deixam conduzir pela cabeça dos outros, dado que apostam em si mesmos. É óbvio e indispensável o concurso do que passa pela cabeça de outros, sempre que se está envolvido no processo decisório. A respeito do que quer que seja. O contrário destituiria o indivíduo das condições que o fazem humano. O exercício dessa humanidade, vazia se alheia e desdenhosa das relações sociais, apura – depurando, concomitantemente – a índole, os vícios e virtudes ostentados por todo ser autoproclamado inteligente. Os que, tendo mantidas suas condições humanas inatas, apostando na luz não na escuridão, usando os olhos para ver e enxergar, os ouvidos para escutar e ouvir, os pés dirigidos para a frente – e só esses, em geral orientam-se pela experiência resultante das lições aprendidas. Mesmo crendo falsa a premissa de que todos os velhos são intolerantes, abandonaria tudo quanto tenha aprendido, se acreditasse em que a troca de Pazzuelo por Queiroga diminuirá nossos problemas. Nem Einstein, nem Martin Luther King, nem Ghandi fariam diferente. A tolerância, portanto, também tem limites. Mesmo quando os idosos a têm.

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