A polarização e seus fundamentos

Conhecedor precário do fenômeno, vejo a polarização ser criticada sem encontrar algo capaz de levar à razoável compreensão das relações que o causam ou nele interferem pesadamente. A observação dos fatos, sua comparação com outros de alguma forma assemelhados ou sustentados pelas mesmas aparentes causas sinto não bastarem à satisfatória compreensão. A experiência acadêmica, que nem depois de afastado do cotidiano acadêmico interrompi - se é que não aprofundei -, ajudam-me a organizar a percepção do problema e a tentar compreendê-lo mais claramente. Pode ser minha ignorância diante de tudo ou boa parte do que tem sido divulgado, por especialistas ou mero curiosos, a razão de manter enormes dúvidas a respeito. Suspeitas, igualmente. Ao que sei, não é de hoje a divisão social entre o nós e eles. De um lado, aqueles apegados a slogans e palavras de ordem nem sempre correspondentes às peculiaridades sociais do País; do outro, os que disputam nada mais que a oportunidade de sobreviver. O nós X eles, portanto, como um retrato 3 X 4 da sociedade, marcada por divisão de classes das mais injustas e oprobriosas. Aí começa o fundamento mais profundo da polarização, a meu pobre e incompleto juízo. Encontro pouco, se encontro algo, a propósito disso, nas leituras que faço e na audiência atenta dos que têm conhecimento de causa ou se arrogam o direito de opinar sobre tudo, com ou sem qualquer capacidade de fazê-lo. Pelo menos, fazê-lo em benefício do esclarecimento dos leitores ou ouvintes. Como o analgésico que curará a dor de cabeça e deixará a doença instalada no paciente, observadores e outros interessados no processo político (no Brasil, frequentemente reduzido ao período de caça aos votos) inventaram uma tal terceira via. Os dois candidatos preferidos pelos eleitores não satisfazem, sejam quais forem as justificativas para excluir os que dispõem de maiores credenciais eleitorais. As que traduzem a tendência dos votantes. Ansiosos por um lugar ao sol, e motivados pelas mais ingênuas quão torpes razões, surgiu farto elenco de postulantes. Pode haver os que se apresentaram apenas movidos pela vaidade pessoal ou o propósito de experimentar, como espécie de treino para, mais à frente, conquistar nem que seja uma vaga de vereador. Outros, pela percepção de que se torna mais fácil satisfazer certos desejos (muitos deles nem sempre legítimos ou honestos), quanto mais perto dos cofres mantidos pela contribuição dos cidadãos. O fato é que, pouco a pouco, foi-se esvaziando a tal terceira via. A polarização vai-se revelando menos uma invenção dos eleitores, porque fundada na divisão de classes mais absurda que se possa imaginar. Percebe-se, então, que o nós constitui o grupo minoritário, a que têm acesso, a conta-gotas, os novos bilionários brasileiros e aspirantes a. O eles representa a maioria, permanentemente ampliada, com a chegada de novas famílias famintas e desempregadas. Dentre os que escaparam à administração de um vírus recordista, com resultados a que não terá faltado a competência de muitos dos que se incluem dentre o nós. Esse, portanto, o nó que qualquer governo que venha a suceder o atual (des) governo deve enfrentar, desde o primeiro dia. Como não viver numa sociedade polarizada, se há energias voltadas as 24 horas de cada dia ao propósito que o fenômeno explicita?

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