A palavra do Papa

Se bem compreendida, a religião não se consuma nem é revelada na competição. Ao contrário desta, o sentimento religioso busca exatamente o reencontro – de uns com os outros, seja qual for a fé professada. De tal forma que possam prevalecer na sociedade que se diz humana os valores correspondentes, a que chamamos humanitários. Afirmo algo que só aos utópicos, tolos ou loucos faz algum sentido? Pode ser. Tanto quanto aos contemporâneos de Leonardo da Vinci um helicóptero pareceria consumado atestado de insanidade mental. Nutro simpatia pelos que, apegados à condição humana que nos cerca, sonham e atribuem a todos o direito de também sonhar. Os utópicos, de modo geral. Tal consideração resulta da percepção dos fatos observados e registrados na História, que, ainda que sucintamente, pode ser reduzida à expressão utopia é o lugar aonde AINDA não se chegou. Se o dito animal inteligente realmente o é, não se conhece outro capaz de pensar abstratamente e, em razão disso, sonhar. Tornar realidade o sonho, portanto, é decorrência natural desse fenômeno, irrenunciavelmente acompanhado da obrigação de buscar tal realização. Só assim poderemos reivindicar a superioridade do descendente do pithecantropus, para além do fato de manter-se dobre as duas patas ancestrais.

Toda essa introdução para uma vez mais louvar as palavras que a conduta permanentemente reafirmada, do Cardeal Jorge Bergoglio suscita e exige. Do sacerdote argentino que lidera a Igreja, de sua sensibilidade social, de seu compromisso com a pregação do andarilho nazareno e de seu vínculo com o santo chamado seráfico (de Assis), todos sabemos. Muitos dos que se dizem fiéis reses do rebanho por ele conduzido não se afinam com os sentimentos não obedecem sua orientação. Alguns chegam a confrontá-las. Outros, indo mais longe, os hostilizam.

De um agnóstico não se poderá exigir a cega obediência ao que proclama e recomenda o chamado Sumo Pontífice. Nem o abandono da crítica, onde e quando julgada necessária. A crítica no sentido amplo, não aquele que só a reconhece na condenação ou na tentativa de anulação das bases em que se fundamentam a ideia, a proposta, o conselho. Isso me anima a destacar as reflexões que Jorge Bergoglio dirigiu à sociedade humana. Tão abrangentes quanto a pandemia, as reivindicações do Papa devem ser objeto dos que se dizem religiosos, e não apenas os que proclamam seu amor e obediência a Jesus Cristo.

Refiro-me desta vez à audiência da última quarta-feira, quando o líder religioso tratou especificamente da pandemia e de fatos a ela relacionados. No centro de sua atenção, a iminência da circulação de uma das vacinas que ocupam laboratórios e cientistas em vários países. “Seria triste se a prioridade da vacina da covid-19 fosse dada aos mais ricos. Seria triste se isso se transformasse na prioridade de uma nação e não fosse destinado a todos”.

Isso é pequena parte do que disse o cardeal Bergoglio, de sua cátedra da Praça de São Pedro. Portanto, é assunto de que continuarei tratando, deste Camarote desinfectado , do vírus e do desamor..

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