A normalidade


Leio e ouço pessoas prometendo ou desejando que logo tudo volte ao normal. Penso que é exatamente o que grande parte das pessoas deseja e gostaria de contribuir para que aconteça. Passada a pandemia, voltaríamos à violência de todo dia, sacrificando vidas jovens, majoritariamente pobres e negros. A maior parte dos habitantes, passada a anormalidade do exercício filantrópico, teria de novo sobre suas mesas dieta incapaz de manter a fragilidade orgânica posta à prova por uma pandemia. As crianças voltariam a banhar-se na lama, desta vez com o estímulo do Presidente as República. As torneiras de muitas áreas na região urbana mesmo das mais ricas cidades brasileiras, estariam secas. Nos hospitais, de Norte a Sul, de Leste a Oeste, a carência de leitos, equipamentos e profissionais voltaria aos registros conhecidos. A educação voltaria à lamentável situação deplorada pelos que não se conformam à ignorância generalizada. O desdém e a zombaria devotados aos cidadãos voltariam a todo vapor. Também seriam lidos novos balanços dos bancos e instituições financeiras, onde os números serão os mesmos de antes da pandemia. Se não forem maiores. O que as algibeiras generosas deixaram escapar diante da morte retornaria multiplicado. Essa é a normalidade em que sempre vivemos. Por que e para que voltar a ela?

Não, confesso-lhes que essa normalidade é desprezível, para não escrever indesejável, odienta. Normalidade que configura uma das piores nações quando olhamos o nível de desigualdade social e econômica com o qual, em grande medida indiferentes, convivemos. Normalidade desenhada pela violência contra os mais pobres. Os problemas sociais convocando soluções policiais, os ricos tornando-se cada dia mais ricos, os despojados (assim os chama o Papa Francisco) sendo despejados até dos mais insalubres barracos que acolhem e abrigam sua indigência renitente. Esta é a normalidade de uma nação que teima e reivindica por suas elites um lugar no passado. Pior, levando com ela os que nada têm a ver com a minoria reunida para escolher e aplaudir seus próprios torturadores.

Não, não é este tipo de normalidade que me inspira. Nem merece minha tolerância. No máximo, a minha compreensão. Porque a sei produto das relações sociais desequilibradas, em que a voracidade e a ganância das elites correspondem à criminalização dos que se opõem a tamanha atrocidade.

Se, superada a pandemia, não tiverem morrido ao menos os 30 mil brasileiros confessadamente desejados, justo esperar que ocorram novas epidemias ou não, com vírus ou sem vírus, o jeito encontrado para alcançar a meta. Anunciada ela o foi. Repetida, igualmente.

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