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A MORTE FELIZ DO ANALFABETO POLÍTICO

Ter consciência das coisas do mundo nos faz sofrer. Ao olhar determinada realidade identificamos logo os sujeitos e as causas do problema, passando a questionar em seguida os meios que poderiam levar à superação daquela situação; uma chatice que persegue quem aprendeu a analisar o que vê.

Feliz mesmo é o alienado, que sorri diante da sua desgraça, achando que é obra divina ou resultado da sua incapacidade de fazer.

Brecht chamava esses seres metafísicos de "analfabetos políticos", justamente aqueles que não sabem que o preço do pão e da carne é obra humana e não resultado de uma lei atemporal. E ao não saber das coisas do mundo, o alienado aceita tudo com resignação e não sofre além daquilo que não satisfaz suas necessidades materiais de vida.

Tenho refletido se é verdade que o alienado quer manter seu estado de letargia mental para não sofrer e assim seguir sua vida feliz como é. Talvez seja uma autodefesa seu distanciamento da consciência crítica.

Penso assim em razão da insistência de muitos desses seres estranhos em não aceitar informação ou uma explicação da realidade. Nem falo de uma reflexão dialética, mas somente de um raciocínio simples das relações políticas e sociais.

Basta você começar a explicar as causas de um problema que o incauto pula, foge ou simplesmente ignora. Ele não quer saber das coisas do mundo.

Fico eu aqui no meu sofrimento e na minha chatice reflexiva, enquanto outros seres acenam e sorriem para o fim da sua aposentadoria e dos seus direitos trabalhistas.

O analfabeto político vive morto, vagando pelo mundo como um fantasma, mas feliz. Ele nem sabe que o choro de fome da criança vem da sua indiferença.


Lúcio Carril

Sociólogo

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