A morte do tempo

Perco-me

entre os ponteiros do

relógio

nestes tempos em que

o sol não faz

aurora

a lua se esconde

envergonhada e inservível

as estrelas repousadas

sobre os ombros de Atlas

descorado

Paralisa-me o

desencontro dos ponteiros

o som da caixa musical

em disparada

a Terra se faz plana

embora plena

a certeza da insana

e certa

caminhada

Para que relógios

ampulheta Cartier

cromos calendários

agendas

na caverna não há

dias

nem há noites

só cegueira

cegos não consomem

o tempo dos infelizes

nem veem

inferno iminente

onde esperanças alegrias

apenas somem...


Estive

noutro tempo na

caverna

o horizonte acabava

em Cotijuba

ilha que vista

da incômoda caserna

é tela branca

descolorida

falta de cor que

os olhos

não perturba

Quem sabe hoje

é um domingo

jamais como outrora

fora

em sábado-feira

cestas sem terço

em dia atarefado

quintas do inferno

no discurso

proclamado

naquela triste forma

ser guardado

É sonora

não há negar

a música da caixa

que na parede produz

o tempo renegado

a que me ajusto

sensível como gado

esperança alimentada

sem gosto e sem futuro

o dia de ter o pão

bem comungado.

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Da morte e dos seus tipos As cargas são diferentes talvez Caronte não o saiba nem saber lhe interessa não faltarão valquírias sedutoras à satisfação do Cérbero faminto Jet-sky não transporta cadáveres

Permanecem no ar ruídos e sentimentos deixados na cara de um negro sobre tapetes vermelhos tingidos da cor por pouco não liberada de um rosto agredido uma piada mal posta sendo a luva que armou a mão

Ah, não fosse dado ao homem viver tanto... se não tivesse olhar atento sempre pronto não veria desfilar diante de seus olhos quanta coisa a doer na alma ferir o corpo machucá-lo dispensável pranto enq