A meta

Tenho dúvidas sobre a idade trazer apenas a sabedoria, aos que sabem aproveitá-la. Cogito, diante do que tenho presenciado, que há certa dose de covardia embutida na suposta sapiência de que nós, velhos, podemos ser portadores. Não sei se a prevenção do conflito aberto, sem máscaras, cruento é preferência devida à sabedoria ou à covardia. Ou se a impossibilidade de entregar o corpo cansado à refrega mais dura carrega de prudência e reflexão toda percepção dos fenômenos testemunhados. Em alguns autores li a iminência de uma ruptura sangrenta, resultado de desigualdades cultivadas, repartição injusta da riqueza, tratamento preconceituoso deferido aos que nada têm e nada podem. Outros apontam certa tendência ou vocação à conciliação, sejam quais forem os termos em que for posta. O fato é que me soa absurdo, embora explicável (se não há uma contradição em termos) tudo ao que estamos assistindo. As agressões à democracia e ao estado de Direito repetem-se com a frequência com que o sol aparece seja lá onde for. O despropósito se repete a toda hora, em todo momento, em qualquer lugar. Forjam-se situações que beiram o inverossímil, de que tratará o recuo estratégico do dia posterior, E nada se faz, além das conhecidas declarações, em geral dos que buscam manter uma normalidade garantidora de privilégios para alguns e mantenedora do sacrifício da maioria,

Não é nova a agitação promovida pelas chamadas milícias virtuais e prestigiada pelo Presidente da República. O que agrava agora a leviandade (desculpem-me a generosidade imerecida) de Jair Bolsonaro é a fase por que passa o País. Enquanto o sistema de saúde mostra a perversidade contida nas restrições financeiras postas em ação por Michel Temer (o precursor?) no setor da saúde, desrespeitam-se não só as recomendações da OMS, dos governadores brasileiros eleitos pelo voto popular e da ciência. O desrespeito maior é contra os mortos, que já passam de dois mil. A não ser que todos tenhamos a obrigação de esperar que os cemitérios brasileiros recolham mais vinte e oito mil vítimas dos vírus que as acometem. Nada mais que o cumprimento de uma promessa que a muitos terá agradado. A outros, a maioria, uma ameaça apenas. Por que deixa-la concretizar-se?

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