A mentira como critério

Jamais se mentiu tanto e a respeito de tudo, quanto hoje. Não me refiro somente às chamadas fake-news, essa forma de glamourizar a falsidade, dita ou feita. Protesta-se amor à democracia e à república, ao mesmo tempo em que se avança sobre ambas, desejando-lhes impor derrotas sucessivas. Grita-se pela liberdade de expressão, à revelia do respeito devido a todos os demais cidadãos. Tenta-se, assim, assegurar o direito de enxovalhar a honra de terceiros e ofender o que à luz do sol é cristalino. Se do lado de lá os espertos conseguem eventuais vitórias, do lado de cá a inteligência e o conhecimento sugerem paciência. A sucessão dos dias vem expondo, pouco a pouco, a sujeira que se esconde nas podres catedrais do vício, do crime, do desamor. Basta que os grupos empenhados em vestir a realidade com os trajes da mentira se desentendam - e aí se conhecem os subterrâneos em que as coisas ocorrem, e a lama de que se nutrem os protagonistas. E se vê que a carniça é pouca para o apetite dos abutres, algumas vez aparentando divergência entre eles..

Não é diferente o cenário, se observarmos o que vem ocorrendo após a rusga (que nem se pode com segurança afirmar definitiva) entre Sérgio Moro e Jair Bolsonaro. Supostamente interessado em combater a corrupção, o ex-juiz e ex-quase Ministro do STF não titubeou em ofender as leis do País e afastar da disputa presidencial o candidato favorito. Não era a corrupção que o animava, mas o alcance de um posto dificilmente atingido por alguém que escreve conje, em qualquer país civilizado. Frustrada sua intenção, e não pelos melhores motivos, o que se tem visto desde então é o ataque justificado ou não à Operação Lava Jato. Uns, porque sabem que sua hora pode estar perto. Afinal, se há alguma coisa que, respeitadas as raras exceções, pode ser imputada à maioria dos políticos e brasileiros, é a eterna pretensão de pôr-se acima da Lei. Outros, porque consideram dentre suas prerrogativas a de usar o dinheiro de todos segundo seu talante e em obediência aos seus apetites. Quem pediria a um assaltante que o ajudasse a defender-se de outro assaltante? Quem aplaudiria um suposto magistrado, caso ele agisse à revelia da ética e da Lei, pondo-se em confronto com os direitos do reclamante?

A mentira, porém, é a mãe de todo canalha. Por isso, levar à confusão entre os que desejam de fato ver extirpada a corrupção e os que fazem de conta querer isso não passa de mais uma das muitas manifestações de amor à mentira. Os que desejam firmemente desvencilhar-nos da chaga da corrupção veem mil possibilidades de fazê-lo em respeito à Lei, à Constituição e à dignidade da pessoa. Basta ter magistrados dignos, policiais orientados pelo dever público, profissionais das comunicações comprometidos com a boa informação e não com rentáveis negócios e políticos que mereçam tal classificação. Pode-se até suspeitar de que muitos dos que pensamos equívocos são perpetrados exatamente para assegurar lucro mais à frente. A conhecida fórmula criar dificuldades para vender facilidades. Consultem-se os anuários policiais, parlamentares e judiciais - e se saberá.

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