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A marca da liderança

Diga-se o que disser de Lula, não se pode negar a liderança que ele exerce entre os que sabem respeitar os pontos de vista alheios. Isso o fez estimado e seguido em toda a trajetória sindical, fê-lo chegar ao mais alto posto do País e atraiu o respeito e a reverência da comunidade internacional. Não há gratuidade, se não gesto de enorme admiração por ele, quando numerosas universidades, mundo afora, o homenageiam com invejáveis títulos honoríficos. Ainda agora, a presença do Tripresidente em Brasília acelerou os processos e procedimentos políticos preparatórios de sua terceira subida pela rampa do Planalto. Há os que veem exagerado personalismo na conduta do ex-metalúrgico, a tal ponto que ninguém dentro do partido por ele fundado conseguiu firmar liderança e tornar-se seu substituto natural. Esse, por mais indesejável que seja, e fenômeno por muitos criticado, não é capaz de obscurecer e tornar menor o talento político de que Lula é dotado. Por isso, ele desagrada certos setores de seu próprio partido e gera incômodos muitas vezes geradores de problemas que adiante ele terá que resolver. Jamais poupei Lula de críticas, tanto quanto nunca neguei aplauso àquelas decisões que me pareceram corretas. Durante algum tempo, eu mesmo fui alvo de certos fanáticos que o acompanhavam. Pior é saber que eles ainda existem e estão próximos do objeto de sua adoração. Pode vir deles, não dos que se vão aos poucos rendendo aos encantos do recém-eleito Presidente o fogo que se diz amigo. Outros preferirão chamá-los de novos cabos Anselmo. Mais que qualquer outro dos seus correligionários, Lula usa a sensibilidade política aguçada e a correlação de forças (como diziam os comunistas, quando isso ainda existia) percebida com sagacidade e inteligência que não são dadas a todos os cidadãos, mesmo se apresentados como sábios da política. Ainda agora, todos - apoiadores e opositores - têm como certo que ele verá aprovada a PEC que permitirá pôr o jantar à mesa dos milhões de famintos do País. Porque, mais que qualquer um dos generosos patriotas, ele sabe sentir o que a fome faz com o ser humano. Se será de um ou quatro anos o tamanho do furo no teto (uma goteira?) de gastos é a questão que resta. Pelo andar da carruagem, estou quase certo de que o prazo não será tão extenso como proposto, nem tão curto quanto o desejam os que apostam no caos. É certo que maior habilidade e determinação Lula terá que demonstrar, quando chegar a hora de fazer o que é inevitável, se realmente desejamos dar paz ao País, tranquilidade às famílias e clima propício à redução da vergonhosa desigualdade social. Refiro-me à pretendida reforma tributária, admitida pelos que tudo têm e mais querem ter, desde que se negue a reduzir-lhes a avareza e a voracidade, em detrimento da base da pirâmide social. Como se o ideal dito liberal consistisse em tornarem-se todos os ricos generosos, a caridade individual transformada em instrumento e prática de governo. Ao invés de emprego, a esmola; ao invés de justiça social, a benemerência. Ao invés de um país constituído de cidadãos, uma sociedade desfibrada e sem brios. Não é essa a expectativa dos brasileiros, os que votaram em Lula e os que, não votando nele, testemunham os resultados de quem desceu a rampa com quase 90% de aprovação popular. Conta a favor de Lula, ainda, a própria idade. Ele sabe e já o disse do desinteresse por manter-se no cargo, passados os quatro anos que 60 milhões de eleitores lhe ofereceram, na construção de uma biografia que poucos conseguem escrever com decisões e atos. Sem bravatas e arroubos próprios aos que não sabem aprender.

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