A Manaus que não consegue respirar: ou a Auschwitz pós-moderna do século 21

José Alcimar de Oliveira *


A exigência que Auschwitz não se repita

é a primeira de todas para a educação (Theodor Adorno).


01. Há quase um ano não seria possível imaginar que a pandemia, combinada ao pandemônio da necrocracia que nos governa, chegasse à tragédia social de mais de 200 mil mortes. Antes de usurpar a presidência que ocupa e mantém pelo poder da mentira e da conivência dos poderes institucionais, sob rédea curta da autocracia burguesa, livre sem controle, o presidente lamentava que a ditadura empresarial-militar, em pouco mais de duas décadas, não tivesse assassinado pelo menos 30 mil brasileiros. Nos últimos dois anos já foi multiplicada por sete a cifra macabra.

02. O que ocorre com a população de Manaus da Amazônia é um crime contra a humanidade. Pessoas morrerem nos hospitais e em suas casas por falta de oxigênio é algo inominável. O Polo Industrial de Manaus está entre os maiores do Brasil. A despeito da reprimarização em curso, o Brasil ainda figura entre as economias mais industrializadas do mundo. Mas não há oxigênio em Manaus. A população de Manaus morre asfixiada, sem poder respirar, ao lado de um Polo Industrial com capacidade instalada para atender demandas cujo nível de sofisticação nem de longe é comensurável à técnica de armazenamento de oxigênio.

03. O registro que o médico e pensador social Djalma Batista faz da Amazônia, cuja “terra é substancialmente índia na sua alma e muito no aspecto de seus habitantes”, continua verdadeiro para Manaus. Mas a parte índia de Manaus é a que menos pode respirar. Para Manaus, o capital biocida e etnocida, além da pandemia de Covid-19, que mata pela falta de ar, pela impossibilidade de respirar, também trouxe a impossibilidade de soprar o ar da vida nas vidas asfixiadas. Em Manaus morre-se duas vezes. A quem recorrer? O relato bíblico do Gênesis associa a vida ao espírito soprado nas narinas do homem. Mas o que Deus fez o capital sufoca.

04. Como se tratava de matar em série, as empresas que supriam os gases envenenados da usina de morte em Auschwitz nunca negligenciaram o planejamento. Sempre havia gases em excesso. Por se tratar de salvar vidas, na Manaus assolada pela pandemia de Covid-19, nesse janeiro de 2021, Auschwitz opera então pelo reverso: promove-se o planejamento da escassez. Mata-se também em série, mas agora pelo corte dos dutos de oxigênio e, desse modo, por falta de ar, Manaus se transformou num tipo de Auschwitz pós-moderna do século XXI.

05. Há 185 anos, em 1836, os Cabanos irredentos chegaram a Manaus, 35 anos antes de Paris ser tomada pela Comuna libertária. As forças do capital, extrativista em Manaus e industrial em Paris, reagiram com precisão bélica e reacionária e sufocaram dois movimentos paradigmáticos da resistência proletária e popular. Entre o final do século XIX e início do século XX a elite, com poucos sinais do que exige o conceito, porque mais extrativa do que intelectual, alimenta Manaus com o sonho traficado de convertê-la em Paris dos Trópicos. Atraída pelas luzes sombrias do neoliberalismo, a Paris dos Trópicos cede lugar ao sonho consumista da Miami Tropical.

06. O arrivismo econômico, político, cultural, estético – que até hoje deita raízes e comanda os destinos da Polis cujas elites se envergonham de seu rosto índio e caboclo –, abandonou a Paris dos Trópicos a partir de 1912, quando se inicia a decadência irreversível da riqueza gomífera produzida à custa da acumulação primitiva e da mais brutal exploração do trabalho registrada nas terras da Hileia. Diz o texto bíblico que um abismo chama outro abismo. Seis anos depois da decadência iniciada em 1912, Manaus é avassalada pela Gripe Espanhola, que antecipa em um século a pandemia de Covid-19. A Gripe Espanhola foi o projeto distópico que lançou as bases estruturais para a recepção da pandemia em curso do ano (ainda) coronavirano de 2021. 2020 migrou inteiro para 2021 e a ele adicionou a novidade regressiva de câmaras sem oxigênio a inferno aberto.

07. 13 de janeiro de 2021: refazendo a ponte militante e revolucionária com os Cabanos de 1836 e com a Comuna de 1871, uma Coluna de militantes de movimentos sociais, sindicatos, associações, coletivos, centrais e partidos, impedida de constituir-se presencialmente, reúne-se por meio remoto e funda, em Manaus, com espírito de solidariedade classista, a FRENTE CABANA EM DEFESA DA VIDA (FreCab). Por meio de um encontro mediático-coletivo, a FreCab foi oficialmente lançada nesse sábado, 16 de janeiro de 2021. A FreCab nasceu como uma Frente Emergencial formada por trabalhadores para enfrentar coletivamente o obscurantismo e o desmonte de direitos sociais conquistados pela classe que vive do trabalho. Além de manter viva a memória da luta nos cabe manter viva a luta que travamos até aqui, esta sim, digna de fazer parte de nossa memória coletiva e da história. Aos agentes da morte restará a lixeira da história. A saída é lutar, porque sem luta saída não haverá.

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* José Alcimar de Oliveira, integrante da FreCab, é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Amazonas, teólogo sem cátedra e filho do cruzamento dos rios Solimões e Jaguaribe. Em Manaus (sedenta de ar e de vida), AM, aos 17 dias de janeiro do ano (ainda) coronavirano de 2021.

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