A História continua

Eleito por quase 60 milhões de eleitores, Jair Bolsonaro subiu a rampa do Palácio do Planalto sob entusiasmo ensandecido: mito, mito! Gritava a multidão nas ruas, no patético episódio que dispensou a apresentação de um projeto de governo ou, no mínimo, de um conjunto de ideias razoáveis. Nada disso foi cobrado do candidato, constituindo o fato, por si só, exemplo talvez único de ignorância política – ou simplesmente desespero.

Sempre que algum jornalista tentava saber do então candidato o que ele pensava a respeito seja de qual fosse o problema, a resposta surpreendia: ou o entrevistado tartamudeava, em flagrante evidência do desconhecimento do assunto em pauta, ou exalava ódio jamais observado na política nacional. Alternativa frequente, o ataque a inimigos imaginários trazia à tona preconceitos de que a maioria dos brasileiros parecia nunca se ter apercebido.

Passados oito meses, Jair Bolsonaro logrou o milagre de registrar índice de impopularidade que nenhum de seus antecessores ungidos pelo voto popular alcançou. A rigor, sem surpresa para os que antes já o viam como incapaz para o exercício das funções. A tal ponto, que a inércia das oposições tornou dispensável qualquer iniciativa nela originada. O governo rui por si mesmo. Multiplica-se outro grito, revelando a gravidade da crise e alta probabilidade de seu agravamento. Mico, mico! é o que se ouve por todo o País, reproduzido e aumentado, sempre que os microfones, os jornais impressos e virtuais, e as emissoras de rádio e televisão publicam algo saído da boca nem sempre limpa do Presidente.

Mais uma vez, se há de admitir: sem nenhuma surpresa. Foi do próprio patriota que presta continência à bandeira de outro país, a proclamação, nos primeiros dias de seu governo: a confissão de que se sentia sem competência para o exercício do posto a que se candidatara. Em eleição de que, anunciou, só admitiria um resultado: sua vitória. Tal episódio, não é demais lembrar, contou com o reforço de influentes brasileiros, como o general Vilas Boas, na ocasião Comandante do Exército.

Os comunistas, mesmo se a queda do muro de Berlim tenha mudado o Mundo; os homossexuais, os negros, os trabalhadores, os camponeses, os indígenas, os artistas, os jornalistas, os cientistas, os professores e os pobres tornaram-se alvos preferenciais. As canetas Bic, ora substituídas pela Compactor, ocuparam os dedos do Presidente, com os quais antes ele apresentava o símbolo de sua força: uma arma. Revólver ou metralhadora, dependendo do grau do ódio inspirador no momento.

A falta das mínimas condições para o exercício da Presidência acentua-se a cada dia. Reveladora dessa incapacidade, a conduta de Jair Bolsonaro alterna pronunciamentos escatológicos, até quando a autoridade pretende passar inaceitável bom humor, com agressões gratuitas a outros chefes de Estado. Porque sejam a tônica de sua atuação, os exemplos são apenas ilustrativos; as agressões ocorrem em ritmo e tom inacreditáveis, sendo baldada a probabilidade de sua exaustão.

Inspirado por filósofo que não o é; acolitado por profissionais que fazem das frustrações o móvel de sua conduta; apoiado pelo que resta dos desesperados que apostaram nele, Jair Bolsonaro envereda por um caminho que desafia a criatividade política de nosso povo.

Mesmo quando se entrega à prática dos vícios políticos que, em tatibitate escatológico, dizia condenar, o Presidente faz gol contra. Não apenas contra ele próprio, porque de alguma forma tudo recairá sobre o povo, não apenas sobre os quase 40% de eleitores que lhe concederam a cadeira presidencial.

Às agressões a Macron, Presidente da França; a Rafael Maduro, da Venezuela; a Michelle Bachelet, ex-Presidente do Chile e atual Comissária dos Direitos Humanos da ONU juntam-se às críticas ao Papa Francisco. E à irreverência diante da memória do pai do Presidente Nacional da OAB e do pai de Michelle Bachelet.

Em suma: em tão pouco tempo, e sem a firmeza da oposição, o Presidente cava sua sepultura política. O que Adélio Bispo, em episódio ainda não suficientemente explicado, não fez, Bolsonaro faz, ainda que simbolicamente.

Que me perdoe o Professor Fukuyama: a História, felizmente, não acabou.

4 visualizações

Posts recentes

Ver tudo

Justiça e veracidade

Foi preciso o Presidente Jair Bolsonaro decretar o fim da corrupção, para o conhecido personagem Justo Veríssimo, de Chico Anísio ser lembrado com maior frequência. Outro Chico, Rodrigues e vice-líder

Os barões da pandemia

A cueca do senador Chico Rodrigues (DEM-RR) desviou a atenção de todos, ocultando problemas graves de que o esconderijo do dinheiro do parlamentar é apenas um exemplo. A aproximação de supostos moral

Pra quê humoristas?

Pra que humoristas? A realidade política brasileira, de tão surreal, dispensa criadores de piadas. Diariamente, chegam prontas as anedotas que aliviam os sacrifícios impostos (1) à população. Como di

Arquitetado e Produzido por WebDesk. Para mais informações acesse: wbdsk.com

Todos os Direitos Reservados | Propriedade Intelectual de José Seráfico.