A gota

Se a caserna achava ainda serem poucos os motivos para as forças armadas ficarem inquietas, essa fase já passou. Sem a contribuição, acentue-se, de algumas das chamadas vivandeiras de fora dos quarteis, nem dos imaginados opositores ao governo. Também não procede dos amaldiçoados órgãos de comunicação social e os profissionais a eles ligados, o que poderia, em situação de normalidade democrática, ser chamado gota d'água. O copo está cheio, pelo menos para a maioria dos que prezam a democracia e costumam pautar sua conduta dentro dos limites da Lei. Em alguns casos, a própria Constituição, a maior do ordenamento jurídico de qualquer nação respeitável. Coube, desta vez, ao ex-Comandante Geral trazer, mais que à vila, à nação, notícia longe de ser considerada boa. Antes, o que muitos veem como indiscrição, outros como atos marginais, chegava ao conhecimento público pela atuação do Intercept. Desta feita, o General Villas-Boas decidiu esclarecer fatos inadmissíveis (para usar as palavras do Ministro Édson Facchin, do STF), pelo que têm de atentatórios à Constituição. Pode não haver outra virtude no depoimento do militar, além de informação de que poucos terão sabido antes da publicação do livro em que o ex-Ministro da Defesa contribui para a História: a nota intimidatória e constrangedora à qual se curvou a instância mais alta do Poder Judiciário foi obra coletiva. Mesmo considerada prática a que os brasileiros parecem acostumar-se, a confissão com sabor de delação impõe mais que palavras, atos que façam retornar ao leito do mar constitucional todo o aparato do serviço público, desta vez - como em outras oportunidades -, em que se envolveram as forças armadas. O (des)concerto a muitas mãos não pode ser encarado pela surdez dos outros poderes republicanos, sob pena de consumar-se o rompimento da ordem pública, cujo esgarçamento tem encontrado nos escalões oficiais da administração pública fontes de estímulo e reiterada agressão.

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