A generalização do grito

Nos campos de pelada é comum ver-se o recuo do árbitro improvisado, como resposta ao grito do peladeiro inconformado. Outros ambientes, todavia, também apostam no grito e a ele atribuem força maior que a do argumento. À falta deste, mais escassas sejam a inteligência e o discernimento, mais necessárias e oportunas são as cordas vocais. A tal ponto, que alguns intimidam adversários ocasionais com os quais não tardarão a confraternizar. Do campo de peladas e de várzea, o grito foi conquistando outros espaços, despreocupado de sua adequação ou oportunidade. Basta saber-se coberto pela coragem que uma arma de fogo justifica, para intimidar quem quer que seja, até mesmo uma nação acovardada. Assim, os gritadores produzem nos cidadãos o sentimento perceptível na imagem sobre tela produzida pelo pintor norueguês Edward Munch. Não obstante os males daí resultantes, nem as agressões reiteradas à democracia, outros terríveis gritos parecem esperar, presos à garganta, o momento de, tal o vômito bilioso, desprenderem-se das mesmas bocas. Aí, então, para proclamar as virtudes dos que, por seu currículo, esperavam-se postos a correr, ao primeiro grito pega o ladrão. Dito assim, ou com oportuno eufemismo. Sinônimo, sempre. O o grito sai dos campos de pelada e de várzea, penetra nos gabinetes e se generaliza.

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