A FORÇA DA RETROTOPIA

José Alcimar de Oliveira*


Estamos sob a mais pervertida e predatória agressão política: a política de destruição do débil Estado nacional por meio da política de desativação do debate político, de substituição da realidade objetivamente posta pela impostura da realidade politicamente falsificada. Esse processo de regressão nas conquistas civilizatórias está ancorado em pelo menos cinco moventes ideológicos e em permanente estado de ativação:

· o MEDO à liberdade de ir, vir, pensar, falar, escrever e publicar; o medo mobiliza e se capilariza mais ligeiro do que a esperança. O medo aglutina. A esperança dissipa.

· o MAL personificado (porque o mal abstrato, metafísico, só interessa aos filósofos) pelas imagens e pelos discursos da esquerda e da crítica, convertidos em inimigos que devem ser destruídos;

· o ÓDIO à teoria e ao próprio pensamento, porque a teoria conspira contra a prática. O Brasil tem pressa e a solução (final) não pode ser sabotada pela nocividade e ociosidade do debate democrático;

· a INSEGURANÇA fabricada e disseminada como mecanismo de contenção social e de legitimação da ordem acima da lei. A Constituição gera o caos. A ordem nos salva e protege. Somente a luta da ordem contra o caos poderá nos conduzir ao Estado de exceção, já de fato em curso;

· a RETROTOPIA (Bauman) que nos levará ao passado ideal. Nosso futuro está no passado. Impõe-se resgatá-lo. O fundamentalismo religioso e a ordem miliciana são suportes axiológicos do progresso. O Brasil será enfim remido pelos valores do Amor à Pátria, da Segurança da Propriedade Privada, da Restauração da Família Cristã, da Liberdade de Ir, Vir e Empreender e, acima de tudo, de voltar a ter Deus Acima de Todos.


Em 21.06.2021

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* José Alcimar de Oliveira é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Amazonas, teólogo sem cátedra, segundo vice-presidente da ADUA – Seção Sindical e filho do cruzamento dos rios Solimões e Jaguaribe. Em Manaus, AM, aos 20 dias de junho do ano (ainda) coronavirano de 2021.

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