A Essência do Embate

Digam o que disserem, pretextem o que pretextarem os bárbaros de nossos dias, o embate atual é mesmo entre a vida e o lucro. Junto às lágrimas e a saudade ainda não suficientemente contabilizadas em decorrência da perda de pessoas queridas, há a considerar a queda de tantas máscaras. Paradoxo dos paradoxos, mais se faz necessário proteger os rostos e antecipar um carnaval difícil de repetir, mais desaba a hipocrisia humana (?). Os cenhos enfezados (no exato significado do termo), os olhos rútilos de ódio mais que de indignação, nada disso retém sobre as caras o acessório-esconderijo invisível do que transita por dentro dos indivíduos. Em um mundo cada dia mais longe da realidade, em que tudo parece tornar-se virtual, artefatos simples mas de flagrante realidade substituem a máscara virtual que não se enxerga mas se sabe estar cobrindo rostos às vezes até simpáticos e sorridentes. Mais isso que a outra coisa.

É constatação, não fruto de invencionice atribuída a tudo quanto desagrada os necrófilos e necropolíticos, a relação entre a reabertura precoce das atividades econômicas com a disseminação do vírus. Foi assim em outros países, para não perder nossa mania de copiar os maus exemplos, assim tem sido entre nós. Santa Catarina é apenas o exemplar mais destacado e divulgado dessa conduta por todos os títulos malsã e nociva à população. Outras unidades da Federação talvez tenham números bastante próximos aos da tragédia que enluta aquele Estado. A gangorra relacionada à oscilante posição dos Estados, quanto à evolução da pandemia em suas fronteiras, reforça a natureza do embate entre vida e economia, como se uma coisa não devesse servir à outra. Sem vida humana, para que serviria a economia?

Os fatos, mais que as palavras, dão a melhor resposta aos cultores da morte. E ajudam a traçar linha pela qual transitam uns e outros, os que se dedicam a minorar o sofrimento dos semelhantes e os que veem estes como servos de ações e iniciativas desdenhosas em relação aos valores humanos. Ontem, recusava-se a proteção instituída pela Consolidação das Leis do Trabalho, não menos que um freio à exploração sem limites do suor dos trabalhadores. Apenas um escudo contra a força do capital, no embate covarde e avassalador com a fraqueza (chamar força seria absurdo) de trabalho. O que nas primeiras décadas do século XX incomodava projeta-se até os dias de hoje, acobertado pelos mais vis pretextos.

Quando defendem o direito de ficar em casa, os trabalhadores recebem a resposta sempre dada pelos que vivem de explorá-los: são preguiçosos e desejam ver a economia desabar. São eles, no entanto, os que mais morrem, como as estatísticas macabras destes dias têm posto à luz do sol. Se alguém se lembra de minorar o sofrimento dos sobreviventes privados de seus maiores, barram-se as entradas da situação que só a total indiferença consideraria compensadora. Não pode ser visto de outra forma o veto à lei que asseguraria indenização pela morte dos sacrificados pela covid-19, em pleno exercício profissional. Sequer a atribuição do caráter ocupacional à agressão da pandemia aos trabalhadores é pacificamente estabelecida. É preciso o Supremo Tribunal Federal dizê-lo. Diferente seria se a vida, não o lucro; ase o Homem, não a economia por ele mesmo criada, fossem tidos como valores superiores. Dignos do ser vivo que se diz superior a todos os demais.

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