A espécie e os espécimes

O muro é o lugar mais confortável para os ignorantes, os oportunistas e os covardes. Os primeiros purgam lá a consequência de seu egoísmo, cevado pelos espertos beneficiários da escuridão. Trata-se, portanto, de uma categoria de desassistidos de inteligência e conformados com a sorte que o diabo (deus nenhum cometeria essa maldade) lhes deu. Os outros não decidem pular para um dos lados por insegurança e pela perspectiva de os ventos lhes levarem ao lugar onde as benesses são desfrutadas e as partilhas, vis que sejam, lhes possam favorecer. Aos terceiros é reservado o papel dos que não veem razão para conquistar o que a superioridade animal lhes sugere. Se pudéssemos sintetizar em um só verbo cada categoria desses espécimes abjetos, diríamos: distanciar, equilibrar, obedecer. O primeiro é facilmente conquistado pela mentira, só muito remota e longinquamente superada, se a vida se prolongar tanto. É no espírito paupérrimo desses que se cultivam os mitos. Pelo menos, no século XXI, tão precocemente envelhecido. Os equilibristas, dado o enorme autoconhecimento de que são dotados, preferem nada arriscar. Há, em seu oportunismo, um quê de virtude. Este consiste em se verem como seres desprovidos de virtudes apreciáveis e qualidades também. Em geral, estão certos. Melhor é se deixarem repousados sobre o muro, até que a mão soberana – de uma deidade qualquer ou de um mito de qualquer natureza – lhes forneça o afago do conquistador. É nesses que se classifica a multidão dos que não encontram dificuldade pera amealhar fortunas, em dinheiro e bens – nada mais. Como o camaleão, apresentam enorme capacidade de adaptação, para o que a cabeça absolutamente vazia e o espírito carente de valores dá extraordinária contribuição. Os outros, também até certo ponto sabendo escassas suas probabilidades de vida mansa, optam pela obediência. Já que não podem, por eles mesmos, produzir algo de que a sociedade humana se aproveitará, seguem qual rebanho em direção ao matadouro. Asseguram-se (ou pensam fazê-lo) de que assim a vida lhes será mais fácil e farta, mesmo que frequentemente sejam advertidos de que há vários tipos de vida. Não basta ao homem (ser humano, esclareço para as feministas mais empedernidas) respirar, alimentar-se fartamente, nem vestir-se com os melhores trajes, para considerar-se vivo. Os covardes, porém, não sabem disso...

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