A CONSCIÊNCIA DE CLASSE EM TEMPOS DE PANDEMIA


Quando eu era um garoto, adolescente, militante do movimento estudantil e do Partido Comunista Brasileiro, PCB, via o Nestor Nascimento, líder negro, advogado, professor e também comunista, olhar para um irmão negro ou irmã negra na rua e abrir um sorriso nem sempre retribuído. Era um sorriso generoso, com olhar de profundo carinho. Isso me deixava intrigado, sem saber decifrar o que aquele gesto representava. Fui crescendo, estudando, aprendendo com o nêgo Nestor e, finalmente, descobri o que meu amigo expressava: era a história que ele via em cada irmão e irmã de raça.

Hoje, quando vejo meus irmãos e irmãs de classe social morrerem eu choro. Tenho consciência das suas histórias de vida. Olho e vejo o sofrimento e a luta pela sobrevivência. Vejo o sorriso que resiste, o amor difícil de ser mostrado, a preocupação com o amanhã dos filhos, com a comida que não é certa, com o calçado que não tem, com o presente de natal que não terá.

Choro, sim. Choro pelo meu povo que está partindo sem assistência médica e social, desnutrido, sofrido, sonhador por dias melhores para seus filhos. Choro por uma história que eles não se dão conta, mas que machuca e indigna quem a conhece.

É por isto que transformo cada lágrima em motivo de luta. Choro e luto.

Meu luto hoje é pela morte dos meus irmãos e irmãs de classe, mas do verbo lutar construo a resistência para que não haja mais tanto luto.


Lúcio Carril

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