A cascata de cada um

O governo tira proveito publicitário da nona queda sucessiva da taxa SELIC. Praticamente está esquecida a marca de 14,5%, fixada, em julho de 2015. Cada reunião do COPOM, a autoridade que lida com o assunto e sobre ele decide, tem efeito semelhante ao da substituição do Papa. Ainda que apenas os especuladores e ganhadores de sempre sejam os mais interessados na fumaça que lhes trará a boa nova, alguns brasileiros incautos também voltam seus olhos para a janela da sala onde funciona o Comitê de Política Monetária, do Banco Central do Brasil.Acreditam no efeito regulador do órgão e nas consequências e impactos positivos dele sobre seus orçamentos domésticos. Os que devem aos bancos ou desejam comprar algum bem durável e, por isso, preparam-se para recorrer aos estabelecimentos de crédito, às vezes até acompanham o noticiário com mais atenção, uma vez anunciada a reunião do COPOM. Enquanto isso, o preço dos bens de consumo, à frente os de primeira necessidade (alimentos, remédios, artigos de higiene) cada semana se movimenta. Sempre para cima. As taxas bancárias e os juros não são diferentes. Nos últimos meses, os bancos, cartões de crédito e agências financeiras acusavam taxas de 300% ao ano. As mesmas, se não mais, que as praticadas quando tinha dois dígitos a expressão da SELIC. Pelo mecanismo que os profissionais do ramo conhecem bem e raramente conseguem (ou querem) explicar, a taxa deveria refletir em toda a economia. Mais baixa a taxa, mais baixo o custo das mercadorias. Uma espécie de cascata, a abranger todo o sistema e os negócios. Na realidade, são escassos os exemplos dessa lógica. Não será desta vez, as circunstâncias o dizem, que a cascata beneficiária os que vivem de salários. Na economia brasileira, há cascatas que cumprem sentido inverso, jogando suas águas para cima. É viver para ver...

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