top of page

A casa e a praça

Era ainda uma criança, quando ouvi pela primeira vez a sentença: hábito de casa se leva à praça. Permito-me esticar um pouco o conceito de casa e ampliar o conteúdo da expressão praça. Isso facilitará compreender e comentar recentes declarações do general Hamilton Mourão, hoje no exercício do mandato de senador. Sendo designado quando vice-Presidente da República para resolver os problemas da Amazônia, o militar trocou seu endereço político (do Palácio do Jaburu para o Senado Federal) sem que qualquer dos problemas afetos à sua autoridade tivesse sido ao menos equacionado. Resolvido, nem pensar! Esta, porém, é apenas uma introdução que permite desautorizar a crença em que de certos matos possam sair bons coelhos. O Mundo e o mundo (se me entende o raro leitor) assumem formas e despertam compromissos segundo a visão dos que os observam. É a tal visão de Mundo/mundo (o globo e a sociedade) que orienta os juízos individuais. Quanto mais longa a permanência da pessoa em determinado ambiente social, mais ela incorpora os valores, crenças, preconceitos e vícios constantes de seu cotidiano. Daí o apego do general-senador ao RDE - Regulamento Disciplinar do Exército, que ele coloca acima da Constituição, a mesma que lhe dá abrigo para postular um cargo político fora dos muros do quartel. Permito-me imaginar quanto desagrada ao parlamentar que ignora essa obrigação elementar mas essencial ao desempenho do mandato popular, pôr-se dentro de um paletó. Gandola e dragonas é o que lhe convém e lhe agrada usar. Intérprete autoproclamado da Constituição e de tudo quanto consta do ordenamento jurídico do País, o general-senador vê toda e qualquer relação sujeita ao Regulamento Disciplinar do Exército, como se o Mundo coubesse dentro de um quartel ou como se as relações superior-subordiinado devessem prevalecer numa sociedade democrática. Se antiguidade é posto na organização castrense, na vida civil o que vale é o que está na Constituição Federal, ainda mais se ela mesma postula e se esforça por criar, manter e desenvolver um Estado Democrático de Direito. De intérpretes ad hoc é o que menos precisa a Constituição. Esse é papel reservado ao Supremo Tribunal Federal, assim como a deputados e senadores é assegurado o direito de produzir as leis. Isso tudo, sob o abrigo da Lei Maior, cuja denominação não é objeto de favor. Contenha-se o general-senador em seus deveres de ofício, um deles o de respeitar o Poder Judiciário. Outro, o de não levar à praça o que na casa deveria ficar. As regras de convivência, na praça, não são as mesmas das que regem as famílias, por melhores que estas sejam.

22 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo

Justiça de Salomão

Antes, o mago de Maringá provou do veneno saído dos porões por ele frequentado. E dirigido. Depois, tentou ganhar posição que reduzisse a quase zero a probabilidade de fugir às suas responsabilidades.

Espetáculo moleque

Antes, chamavam-se de molecagem condutas como a de Joe Biden. Tentando posar de pacifista, empresta apoio político e fornece armas para Israel. A rigor, nada que possa surpreender os que acompanham a

O Brasil e a guerra

Terminada a II Grande Guerra, talvez nunca estivemos tão próximo de um novo conflito bélico global, quanto hoje. Mesmo a crise gerada pela instalação de foguetes da União Soviética em Cuba (1962) não

Comments


bottom of page