A brutalidade normalizada


Marcelo Seráfico

Um dia desses, num lugar chamado Jacarezinho, pessoas trajando farda de força de segurança pública fuzilaram 28 pessoas em trajes civis. Ontem, 200 pessoas nas mesmas fardas, depois de 20 dias de busca, fuzilaram com 38 tiros um indivíduo que delas fugia no meio do mato.

As polícias caçam os pobres, sendo os policiais mesmos, a maioria, pobres. Imaginem essa brutalidade mobilizada contra os que os brutalizam nas fardas!!

Essas fardas convertem a brutalização da pobreza em brutalidade contra a própria pobreza. É, guardadas as devidas proporções, o que ocorre com os que ascendem socialmente "no mercado", "na política" e "na ciência" e cospem em sua própria trajetória.

É mais um efeito perverso, brutal, da meritocracia em países desiguais como o nosso.

O mérito se revela na possibilidade de cuspir em quem ficou pra trás.

A lógica da meritocracia nas polícias, porém, não permite os eufemismos e salamaleques das bolsas de valores, dos congressos e das universidades. É bala do pente pro corpo, sangue e comemoração!! A imprensa transmite tudo. Nesse caso, uma mini-série com 20 capítulos transmitidos várias vezes ao dia. Um thriller com fim previsível, ainda assim, apoteótico, com policiais celebrando, jornalista dançando, comerciantes lançando rojões e cidadãos aplaudindo o desfecho. Há, ainda, quem reduza a barbárie ao fim de um registro fiscal.

Não sobra ninguém.

O fato é social e total. A violência é social e total. Estamos, todos, disparando balas contra nossas cabeças!

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