A barbárie como opção

É difícil admitirmos a barbárie como escolha dos governantes. Não terá sido para isso que os pensadores, políticos e cientistas fizeram avançar a tecnologia, o conceito de homem e civilização e os processos políticos. A caminhada civilizatória, como todo percurso da História do Homem, sempre estará sujeita ao jogo dos interesses e objetivos em permanente contradição. Entre o debate estabelecido por forças antagônicas e a opção por processos e decisões orientados pela barbárie, entretanto, se há de reconhecer enorme distância. Sobretudo quando envolvem o Estado, criação do homem diante das inevitáveis divergências entre os que se põem sob seu governo. O que aconteceu faz poucos dias na favela de Paraisópolis, na mais importante cidade da América do Sul, depõe contra o Brasil e seus cidadãos, tanto quanto revela a face perversa de políticas claramente ofensivas ao próprio processo civilizatório. Com as agravantes e os antecedentes que tornam o fato corriqueiro. Pelo que tem de repetitivo e pelo inevitável vínculo estabelecido entre ele e as mensagens que, se não o inspiraram direta e imediatamente, ao menos pelo clima em que ocorreu, tem sido estimulado. Quando se deveria pacificar o País e devolver à população a tranquilidade há muito perdida, cogitam-se soluções que não anunciam menos que agravamento do ódio. Só isso explica a mais enlouquecida das iniciativas pretendidas em nome do combate à violência, a autorização para matar. Sabe o Ministro da Justiça, por dever de ofício, já dispor a legislação brasileira do instituto da legítima defesa. Ele, não outro, dotado de alto potencial mortífero, tem condições de proteger os que, pagos com o dinheiro do contribuinte, frequentemente promovem o morticínio e vulgarizam a chacina. Como disse um comentarista, na favela paulista viveu-se (vive-se, ainda) muito longe do Paraíso.

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