A barbárie bolsonarista, o vírus e seu antídoto

Marcelo Seráfico

A situação brasileira é, sob todos os aspectos, desgraçada. O vírus e a doença agravaram-na, pois atiçaram a labareda do bolsonarismo. É tolice cobrar racionalidade objetiva dos que tornaram a destruição nacional projeto político encabeçado por um mito que o reveste do manto fake da salvação moral. Moral miliciana fundada em todas as formas de corrupção contidas no código penal. Não é sequer estranho que defendam a antítese do que proclamam, mas tão somente sintoma do grau da ignorância histórica e política que os guia. E, nesse caso, sintoma de como a ignorância contém desumanidade e pode converter-se em ideologia dominante da orientação política.

Bolsonaro e os seus podem dizer e desdizer sem que isso provoque nas demais forças da ordem supostamente harmoniosas e independentes, qualquer reação à altura das agressões à sociedade. Não é difícil concluir a existência de uma ampla, geral e irrestrita cumplicidade entre quem executa, quem formula e quem julga as penas a que está submetida a maioria dos cidadãos e cidadãs brasileiros. Estamos todos encarcerados e torturados pelas instituições putrefatas do país.

O Executivo federal dispõe de milícias reais-materiais e reais-virtuais. Todas empenhadas em destruir o que não seja igual a elas. A disposição com que lutam é admirável. São capazes - os mais imbecis - de sacrificar a própria vida pela causa. Os mais malévolos, porém, sacrificam a vida alheia sem nenhum constrangimento.

Manaus, quanto a isso, é um laboratório lúgubre.

Lembremo-nos. Há cerca de um mês e meio, um movimento de proprietários de flutuantes foi para a porta da sede do governo do Estado cobrar a reabertura desses empreendimentos. Quem são esses proprietários? São parte de uma classe média que se vê como "empreendedora". Pessoas que, em meio a uma pandemia, são capazes de reivindicar a exposição à doença, não uma política econômica que compense as perdas e estimule a contenção do mal; são ultraliberais, individualistas, egocêntricos... e lisos. São a lumpen-pequena-burguesia que dá sustentação ao autoritarismo presidencial.

Há menos tempo, lideranças empresariais fizeram uma live mórbida para forçar o governo do Estado a voltar atrás da decisão do lockdown. Estavam ali os "intelectuais" do empresariado, os que pensam e falam em nome da classe. O governador voltou atrás. Também ultraliberais, individualistas e egocêntricos, eles, porém, são endinheirados e, em geral, sentem-se muito à vontade com a morte alheia, mas prezam muito a própria vida.

Como se deu a formação desses tipos humanos mórbidos, de pessoas que fetichizam a economia e desprezam a vida (a própria, alguns, e a alheia, outros)?

São essas as pessoas que aderiram ao bolsonarismo. Muitas delas passaram anos amadurecendo em "teses" soltas ao vento... algumas namoraram a vida toda com o neomalthusianismo, outras com o elitismo político, outras com o neoliberalismo econômico. Não, nenhuma delas leu sequer uma página de qualquer autor que mereça esse nome. A maioria é leitora de auto-ajuda e de livros de divulgação, o que é mais do que suficiente para formar aquela convicção dogmática refratária à reflexão séria, tranquila e responsável necessária a quem, antes de transformar o mundo, espera compreender algo dele.

O amor à ignorância é um traço definidor da boçalidade das elites e da massa que dão sustentação à barbárie nacional. Por isso, não existe a menor perspectiva de que essas pessoas possam ser transformadas pela consciência. São dogmáticas, sectárias, imbecis e boçais. Qualquer atividade, pessoa ou ideia que ponha essas características na luz é vista por eles como uma ameaça e como tal deve ser combatida.

Isso não mudará neles e deve ser tomado como uma marca dos anos porvir, aqui e no mundo.

Entramos na era das trevas da modernidade-mundo. Se quisermos entender nosso tempo, portanto, é melhor olhar para os séculos XII - XIV, isto é, os cerca de trezentos anos nos quais atrocidades foram promovidas em nome de Deus e de senhores feudais, até que foram reunidas energias que permitiram um "renascimento", "luzes", "esclarecimento".

O cenário mais próximo é o de avanço de uma guerra civil mundial... sim, avanço, pois ela está em pleno curso.

Recomendo fortemente um documentário sobre o "crack" que está no Netflix. Está claro que o establishment dos EUA declarou uma guerra aos negros. No Brasil essa guerra dura 521 anos. Não existe outro horizonte para sair disso que não uma guerra civil vencida pelos que escaparem do bolsonarismo, dos sectarismos pseudo-esquerdistas e das conveniências institucionalistas. Mas que também forem capazes de inventar um outro desenho de mundo que ultrapasse seus umbigos.

Vivemos a frustração e a regressão de expectativas criadas há 220 anos.

Isso não é pouca coisa. Ou entendemos a razão de ser dessa regressão e nos pomos a combatê-la, ou seremos vítimas do fatalismo, a pior doença que o individualismo produz.


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