A armada mineradora

Fatos antes beirando o inimaginável seguem registrados, banalizando mais que a violência. Ou dando-lhe novos trajes, em apresentação diferente, mas não menos absurda e agressiva. O mal, banalizado, utiliza todas as formas possíveis, em país que os bem intencionados diziam fadado a belo futuro. A previsão de Stephen Zweig não se havia desfeito ainda, quando o escritor austríaco se suicidou. Difícil afirmar a relação do desesperado ato do imigrante europeu com alguma frustração por ele experimentada. Teria ele percebido, profeticamente, o exagero de suas previsões? Impossível dizer-se. Hanna Arendt, impactada pelas práticas nazistas e preocupada com a rotina que as caracterizou, pôs o dedo na ferida: o mal também se banaliza. Com armas apontadas contra o corpo de um ser humano, também fazendo de outros objetos os portadores de perversidade que habita mentes e corações. Não é menos que isso a ameaça que pesa sobre as populações indígenas e ribeirinhas, em especial na Amazônia. Objeto do que Arthur Reis chamava cobiça internacional, graças à ação de falsos patriotas, a região atrai a voracidade de grupos, nacionais e estrangeiros, hoje mais vigorosamente que nunca. Só a subserviência e a cumplicidade covarde, interesseira e desumana fingem ignorar quanto as autoridades têm a ver com o fenômeno. Balsas assumem, assim, o papel que os canhões do passado executavam. Matar sem desferir um só tiro custa menos aos invasores. E aos que põem sua voz e sua caneta a serviço de tão ignóbil causa.

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