Açodamento e imprecisão

É compreensível o esforço de interpretação do resultado das eleições, como o é a tentativa de fazer previsões. Sem isso, não teríamos mais que profetas de verdades prontas e acabadas. Nem sempre, porém, a pressa com que se empenham os analistas ajuda o bom discernimento. Daí encontrarem-se comentários aparentemente lúcidos, comprometidos pelo esquecimento de variáveis importantes para a composição do cenário. Nestes primeiros dias pós-eleição municipal, multiplicam-se as análises, aumentando o risco de confusão ainda maior do que a ostentada pelo nosso cotidiano politico. Ao que sentimos, do rol dos interessados em compreender o fenômeno participam tanto os que atribuem expressiva derrota ao Presidente Jair Bolsonaro, quanto os que o consideram, à semelhança do derrotado ídolo norte-americano, um vencedor. Penso equivocado defender qualquer das duas posições, vendo-as apenas como expressão de desejos, menos que fotografia da realidade com a qual convivemos. Não descarto, como pano de fundo dessas interpretações aligeiradas, o próprio fato de serem levadas em conta certas circunstâncias erigidas como categorias. Refiro-me, em especial, ao rótulo transformado em pálio debaixo do qual se abrigam os seguidores do Presidente da República. Mencionar o bolsonarismo equivale a legitimar um sistema de ideias, princípios e valores, inexistente. Primeiro, porque falte ao ex-capitão a mínima condição de articular, no mínimo, discurso razoável para explicar o mundo e a realidade. Esse desnorteio é constatado não apenas nos reiterados momentos de hesitação – um ir-e-vir diário -, como no uso sistemático da mentira à falta de coerência, característico do suposto criador do mais que suposto, suspeito – bolsonarismo. Assim, soa-me adequado imaginar que as favas só serão contadas após revelados os números do segundo turno. Então, os equívocos serão corrigidos e será possível pôr a imaginação nos trilhos e navegar com mais segurança. Qualquer previsão minimamente confiável dependerá dos resultados para as prefeituras de São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Fortaleza, Belém e Vitória. Nas outras capitais, a escolha se dará, praticamente, entre seis e meia dúzia. Não pode escapar, ainda, a composição das câmaras municipais, país a dentro.

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