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96


 

epígrafe:

...há também poesia nos números.

 

naquele tempo...

 

era um domingo,

o espaço: belém.

não aquela que os magos buscavam,

tampouco a da manjedoura

- berço da salvação,

mas a da floresta das iaras.

 

a rua: nazaré,

não a da palestina devastada

pela sanha do mal.

 

mas a dos peregrinos piedosos

que no segundo domingo

do décimo mês do ano

arrastam pela cidade

a imagem da mãe

do salvador.

 

o número: 96,

hoje alterado

pela insensibilidade burocrática.

 

como se fosse possível

apagar o que fica,

ou transformar

o que, mesmo o girar dos dias,

contra ou a favor dos ponteiros,

permanece o que é:

96.

 

...era páscoa.

reunidos celebrávamos a luz

que renasce a cada manhã,

ausência que é presença

na ressurreição,

ressureição que é amor.

 

à mesa tinha assento também uma mestra:

maria de nazaré.

não a mãe do nazareno,

mas sim a pedagoga aposentada

que alfabetizava as empregadas domésticas

da rua dos patrícios

de uma outra belém.

 

a ceia celebrava o renascimento

para os cristãos

e era vivida em uma família católica,

de tradição portuguesa,

onde não faltava o pão, o vinho e o peixe.

 

seguia-se a leitura do evangelho de joão

e a homilia - lidos por tia amada.

sim, havia, também, uma tia que era amada.

e, eu, único varão à mesa,

reivindicava o direito à palavra

 

e vinha o verbo da libertação,

da igreja do cristo

que, com (a)paixão,

nos ensinou a amar.

 

assim, celebrava-se a páscoa

de uma infância e de uma juventude

que não passaram.

 

ou, que talvez tenham ficado

aprisionadas em um 96 que,

como o girar da terra,

a cada rotação,

transforma a noite - crucificação

em radiosa alvorada – ressurreição.

 

paulo emílio martins

rio de janeiro, 5 de abril de 2026

para celebrar o almoço do domingo da páscoa

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