2026: construção ou desconstrução*
- Professor Seráfico

- 28 de fev.
- 4 min de leitura
A pesquisadora, tímida, ouviu a plateia gritar em coro o seu nome – e sorriu. A ciência precisa estar entre as prioridades.
Marcos Magalhães
Ao saber da presença na plateia da pesquisadora Tatiana Sampaio, em um camarote da Marques de Sapucaí no sábado, o cantor pernambucano João Gomes interrompeu o show para lhe prestar homenagem. “Você é a maior celebridade que tem aqui hoje”, disse ele. O momento tem muito a dizer sobre o Brasil que se pretende construir neste início de século 21.
A pesquisadora, tímida, ainda ouviu a plateia gritar em coro o seu nome. E sorriu diante da cena que pouca gente poderia imaginar há poucos anos. Ali estava uma estrela em ascensão do mundo da arte puxando aplauso para quem ganhou manchetes pelo mundo por sua dedicação à ciência.
Tatiana é a pesquisadora da Universidade Federal do Rio de Janeiro que comanda uma equipe de pesquisa sobre a polilaminina, substância que pode vir a ajudar tetraplégicos a recuperar seus movimentos, segundo indicam as pesquisas.
Ainda falta algum tempo até que os medicamentos baseados na substância estejam disponíveis a toda a população. Mas já existem diversos relatos de pessoas acidentadas que voltaram a andar.
Pode ser uma grande conquista da ciência. Quem vai lucrar com isso? Ainda há controvérsias sobre a possibilidade de o país conquistar patente internacional do produto, uma vez que o governo Temer deixou de pagar contribuições ao sistema internacional de patentes.
O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, compareceu às redes sociais para anunciar a aprovação em primeira fase, pela Anvisa, do estudo clínico de produto baseado na laminina. “É notícia para a gente começar 2026 cheio de esperança”, afirmou.
Pois a notícia chega no momento em que o país se prepara para conhecer as propostas dos candidatos às eleições de outubro. Sim, porque os brasileiros merecem conhecer as ideias de quem pretende comandar o país a partir de 2027.
O mundo vive um momento de ruptura. Já existe um grande conflito econômico entre as duas principais superpotências, Estados Unidos e China. E uma guerra em andamento há quatro anos na Europa indica que podemos estar mais perto do que gostaríamos da repetição de grandes confrontos armados.
A pandemia do coronavírus, que antecedeu a atual onda de desarticulação geopolítica, já indicou a necessidade de buscar na ciência maior autonomia na produção e distribuição de vacinas e medicamentos.
A desmontagem de cadeias produtivas, por causa da pandemia, também exibiu a necessidade de pelo menos parcial autossuficiência na produção de insumos hoje básicos para a economia, como semicondutores.
A urgência climática, por sua vez, trouxe a percepção da importância de uma rápida transição energética para redução da emissão de carbono.
E como o Brasil pretende se preparar para um período tão exigente que vem pela frente? Aqui já se delineia uma bifurcação na política nacional.
Há oito anos, quando a candidatura improvável de Jair Bolsonaro começou a ganhar força, o capitão evitava comentar seus planos. “Não posso agora falar de construir nada”, alegava. “Porque há muita coisa para desconstruir primeiro”.
Essa promessa ele cumpriu. Desconstruiu, por exemplo, o sistema de apoio à produção de cultura. Desmontou também a agenda de proteção do meio ambiente. E descartou a ciência ao criticar, reiteradamente, as vacinas contra o coronavírus.
Seu filho mais velho ainda tem apenas o sobrenome a apresentar. Mas já anda falando em afiar a tesoura para cortar gastos públicos. Uma versão tropical da motoserra de Javier Milei, na Argentina.
Pouca gente tem dúvidas, a esta altura, que o governo brasileiro precisa buscar uma reforma fiscal capaz de produzir superávits primários que permitam estabilizar a relação entre a dívida pública e o Produto Interno Bruto (PIB).
Na atual conjuntura global, porém, é preciso ter muita cautela na hora de definir as prioridades de uso do dinheiro público. O realinhamento geopolítico indica que o Brasil precisa buscar mais autonomia em setores estratégicos.
E a ciência precisa estar entre as prioridades. Em tempos de grande competição econômica, deixar de lado a pesquisa significa ficar cada vez mais refém de quem segue o caminho inverso.
As investigações sobre a polilaminina, por exemplo, foram feitas por mais de vinte anos por uma universidade federal, com recursos públicos. O Estado não pode ficar ausente na construção de uma economia mais resiliente.
Outra instituição pública de ensino, a Universidade de São Paulo (USP), está desenvolvendo, junto a empresas brasileiras, pequenas unidades produtoras de semicondutores, que os acadêmicos chamam de pocket fabs.
Essas fábricas de bolso poderão produzir semicondutores na quantidade certa e onde forem necessários. Elas deixam de lado megainvestimentos de bilhões de dólares para chegar à ponta com pequenas quantias envolvidas.
No meio rural, instituições como a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) avançam na pesquisa de modos de plantio capazes, ao mesmo tempo, de garantir maior autonomia ao país e emitir menos gases de efeito estufa.
A pesquisadora Mariangela Hungria acaba de conquistar o World Food Prize, uma espécie de Nobel da Agricultura, por suas pesquisas sobre o uso de microrganismos capazes de substituir fertilizantes químicos, geralmente importados, reduzindo custos de produção e impactos ambientais.
Existe a presença do Estado em cada uma dessas conquistas. E todas elas indicam caminhos mais promissores para o Brasil. Desconstruir é sempre mais fácil. Mas 2026 pode ser o ano em que o país opta pela construção de um futuro melhor.
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*Publicado no blogue do Noblat, em 27/02/2026.

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