Ética sobretudo


O monitoramento de portadores do novo coronavírus tem desafiado a Ciência, a Filosofia e, sobretudo, os valores em que se funda o comportamento das pessoas e dos governos. À Ciência, jamais tão agredida e vilipendiado como agora, interessa em primeiro lugar suprir a lacuna de informações relevantes, tanto para o tratamento das pessoas infectadas, quanto para chegar à vacina, em nenhum outro momento da História tão desejada. Do ponto de vista da Tecnologia, o que se sabe afirma categoricamente a possibilidade de acompanhar os pacientes infectados e seus contatos como já vêm ocorrendo em alguns países, obrigatória ou opcionalmente. Nos Estados Unidos da América do Norte, por exemplo, há Estados onde o monitoramento eletrônico é obrigatório e outros, onde a tecnologia mais avançada foi adotada. Em outros, o assunto é objeto de acesas discussões, sendo que nem direita nem esquerda têm posição unívoca. É bem o caso da França, onde a direita rejeita os aplicativos de monitoramento, enquanto os senadores os aprovam.

O assunto tem mobilizado não apenas as equipes médicas e científicas, os governos nacionais, mas também os filósofos e cientistas sociais, lideranças religiosas e jornalistas, por todo o mundo. O argumento invariável, país a país, está no potencial uso dos aplicativos em função de interesses que nada têm a ver com a covid-19. Trata-se, portanto, do reconhecimento e da ratificação de condutas assaz conhecidas, envolvendo as redes inadequadamente chamadas sociais. A não ser que tal expressão inclua o termo anti.

Testemunhamos todos a invasão de nossos mais íntimos ambientes e segredos pelas tais redes, frequentemente usadas com fins de alguma forma atentatórios à liberdade e à privacidade individuais. O fato de que algumas pessoas as utilizem apenas para satisfazer sua própria pequenez não elimina os riscos a que se expõem todos os demais. Pior, ainda, quando as redes são utilizadas pelos governantes, muitos dos quais as têm e mantêm como verdadeiras milícias virtuais.

Praticamente resolvido dos pontos de vista científico e tecnológico, o monitoramento eletrônico traz consigo outra ordem de preocupação, desta vez no campo da conduta humana. É, queiramos ou não, uma questão ética, de cuja discussão e envolvimento os que se julgam bons cidadãos não podem esquivar-se.

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