É preciso ser diferente

Foram frequentes muitos militares nas turmas para as quais lecionei, durante minha longa vida de magistério. O Curso de Administração da Universidade do Amazonas era dos mais solicitados por oficiais e subalternos (para usar a linguagem da caserna). Lá, constatei o que testemunhara quando aluno do Centro de Preparação de Oficiais da Reserva (CPOR), em Belém. Ratificado no ano de 1963, quando o estágio de instrução realizado no então 26° Batalhão de Caçadores - 26º BC -, em Manaus, assegurou-me a patente de Segundo-Tenente de Infantaria.

Nos primeiros anos de professor, suspeitava de que outros interesses levavam esses alunos às minhas turmas. Mais tarde, promovida a redemocratização do País, era menos suspeito o meu olhar. Havia mil razões para ser assim. Inúmeras provas me foram dadas do cuidado que os alunos militares dispensavam aos estudos e a forma cortês e generosa como se comportavam. Comigo e com todos os demais professores. A tal ponto, que a forma como com eles me relacionava gerou estima recíproca em muitos casos. Talvez não valha a pena citar nomes, mas lembrar episódios dignificantes, que o comportamento de muitos oficiais dos que hoje têm destaque estão longe de repetir. Desde o então Comandante do 26° BC, até o Ajudante-de-ordens de um dos Comandantes militares da Amazônia. O primeiro mobilizou os colegas e organizou homenagem que até hoje

repercute em minha memória. Tratava-se de marcar a passagem do Dia do Professor, quando o coronel discursou em nome da turma e me entregou um presente. Foi a forma que ele e seus colegas acharam de festejar a data. Outro episódio diz respeito às relações mantidas com outro oficial, a partir de uma discussão acadêmica sobre o fenômeno da tortura. Respeitosa como deve ser toda discussão entre seres humanos civilizados, eram divergentes nossos pontos de vista. Provocado pelos alunos, expus o que pensava e penso sobre o tema. Exortado pelos colegas, o capitão defendeu sua posição a respeito. Não houve votação, não houve restrição à livre manifestação dos alunos. O debate encerrou-se ao final da aula. Mas cada um levou para casa o que o outro havia dito. Na aula seguinte,procurado pelo oficial, ouvi dele: Professor, o senhor tem razão. Pensei muito no problema e vejo que a razão é sua. A partir daí, toda vez em que nos encontrávamos, a alegria, o respeito e a estima mostravam-se transparentes. Isso levou-me a ser apresentado por ele a sua mulher e uma de suas filhas, se é que ele tem ou tinha outra(s). Nunca mais soube deles, tenho-os agora guardados na memória.

Um dia foram diferentes nossos fardados!

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