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É luxo só...

Nos últimos dos anos que passei ministrando aulas, falei para os meus alunos sobre os itens que constituíam, à época, uma vida luxuosa. Apenas reproduzi o que certos pesquisadores e pensadores incluíam em uma lista de coisas – materiais ou não – que atribuem luxo à vida das pessoas. Não sem uma certa surpresa, espanto talvez, os alunos pareceram responder à minha peroração com algum desdém. Pode ter sido, também, desconfiança. "Afinal, faz muito bem o Seráfico em preparar sua aposentadoria". Esse o sentimento que descobri naqueles rostos transcendendo incredulidade. Louvava-me no que tinha lido de um autor chamado Eisenberger. Para ele, os que desfrutam de uma vida de luxo têm que dispor de: acesso fácil à água potável; ar puro para respirar; bom circulo de amigos; tempo para fazer o que lhes dê na telha. Já agora o leitor compreenderá a cara de espanto e desconfiança dos meus alunos, não é?

Ninguém me disse, nem o autor me informou, mas acho que o dinheiro estava fora de suas cogitações. Sei, porém, que o dinheiro não enriquece ninguém, pelo menos do ponto de vista humano. Concordo, pois, com o que disse Lucius Aennaeus Seneca (4 a.C- 65 a.C). Fosse coisa digna de tanta louvação e busca, não teríamos dentre os que acumularam o que Basílio, o Bispo de Cesarea (sec. IV) chamou “o esterco do diabo”, uns trogloditas modernos (ou modernosos?). Ao que percebo, além de comprar políticos corruptos, o que o dinheiro aproxima dos que o detêm é a usura, a ganância desmesurada, o desprezo pelos outros, a hipocrisia, a superioridade dos que se sabem (mas não têm coragem de confessar) inferiores.

Pois bem; se esse ícone da sociedade de mercado não se tem prestado a conferir luxo à vida das pessoas que o acumulam, é preciso identificar quais seriam as condições de uma vida luxuosa. Foi isso que o filósofoHans-Magnus Enzensberger fez. E explicou suficientemente. Avaliar as razões pelas quais o acesso fácil à água potável encabeça a lista não é muito difícil para quem já se deu conta da carência desse bem reiteradamente desperdiçado, quando não desrespeitado pelos que dele necessitam, como sempre necessitaram e que mais necessitarão ainda, enquanto durarem vivos. Isso não tem, todavia, impedido o desmonte da natureza, do qual resulta o acelerado processo de predação de que somos testemunhas. Parece aproximar-se o dia em que o sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão.

Variam pouco as razões por que o ar puro consta dos itens apontados pelo pensador alemão. A civilização do automóvel rende culto aos combustíveis poluentes, mesmo à custa do sacrifício do ar que entra pelos pulmões de todos, qualquer que seja o tamanho de sua conta bancária. E, para tingir com cores ainda mais trágicas essa constatação, ainda agora mesmo assistimos à matança dos seres do mar, envenenados pelo óleo cru que percorre a costa brasileira. O que torna diferente o morador de rua, o catador de lixo que se envenenarão com o piche espalhado pelas praias nordestinas e do sudeste, dos endinheirados que costumam empanturrar-se de lagosta e que tais? Se seus bolsos são diferentes, sua estrutura anatômica não o é.

E o tempo, ah, o tempo! Os pobres de bolsos cheios clamam por ele, mas o desperdiçam no afã de ter mais dinheiro. E fazem a justa alegria dos consultórios médicos. E dos hospitais privados. Quem sabe até das cuidadoras e dos coveiros de cujos serviços ficam cada dia mais dependentes?

Yuval Noa Harari, ao dispensar-se do smartfone, tem muito a ver com Enzensberger. Dele se pode dizer que, pelo menos quanto a esse item, tem uma vida luxuosa. Deve ter amigos, pois sem eles, de que valeria viver como se humanos fôssemos?

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