À guisa de saudação*
- Professor Seráfico

- 19 de abr.
- 3 min de leitura
Pelas mãos de Jefferson Peres, subi a escada do velho prédio de A Crítica, na rua Lobo d’Almada. Corria o ano de 1971. Professor, como eu, da Faculdade de Economia da Universidade do Amazonas, o colega não tinha como atender ao convite que Umberto Calderaro Filho lhe fizera. Secretário Geral do Tribunal de Justiça do Amazonas, seus afazeres não deixavam tempo para elaborar o editorial diário do jornal fundado em 19 de abril de 1949. Seria difícil àquele amigo manter o conteúdo de suas aulas à altura em que as proferia, se nova obrigação profissional fosse acrescentada ao seu laborioso cotidiano. Por isso, estava eu ali, diante do fundador e proprietário d’ A Crítica. A confiança que Calderaro depositava no Jefferson respondia, exclusivamente ou não, pela receptividade ao meu nome. Talvez eventual contato com meu pai, quando exercia o cargo de Superintendente de Navegação dos SNAAPP – Serviços de Navegação da Amazônia e Administração do Porto do Pará (1955-1961), tenha ajudado. Muitas foram as vezes em que João Baptista Seraphico de Assis Carvalho visitara Manaus, sempre em desobriga funcional. Esse é segredo quase impossível de esclarecer. O fato é que, desde aquele longínquo ano do século XX, quando fui feito editorialista d’ A Crítica, raramente me foi negado o espaço para levar ao conhecimento público o resultado de minhas leituras e minhas percepções dos fenômenos que me tem sido dado observar. Num desses raros períodos, exercia a Presidência da República político cujo pai era bastante conhecido por Umberto Calderaro Filho. O pai do Presidente, senador Arnon Afonso de Farias Melo (1911-1983), extrapolou o território alagoano onde nascera, por ter matado a tiros um colega de Parlamento, em 1963. José Kairalla Filho, representante do Acre, foi a vítima. O filho, sabia o jornalista amazonense, não parecia mais equilibrado que seu genitor. Texto editorial que Calderaro previu capaz de irritar o “caçador de marajás” foi rejeitado. O único, também o que me fez abandonar o jornal, do qual me mantive afastado cerca de um ano. Até que, cassado, Fernando voltasse às Alagoas, muito antes de ser condenado por apenas alguns dos crimes cometidos em sua triste trajetória. Quase simultaneamente, Umberto mandou chamar-me. Queria que eu retomasse o posto de editorialista e explicou, convincente e cabalmente, as razões por que não me chamara antes. Ele conhecia muito bem as pessoas com quem lidava. Outro afastamento ocorreu, em curto período, por motivos que até hoje desconheço, nem pedi a Calderaro que os esclarecesse, um dos amigos mais leais e generosos que terei conhecido. Por isso, passados 55 anos, desde que subi as escadas d’ A Crítica e tive o primeiro contato com Umberto Calderaro Filho, tento responder à generosidade e à leal amizade por ele tantas vezes demonstrada. Melhor saber, ainda, que não era só eu quem desfrutava desse privilégio. Éramos todos, ele um pouco mais velho e experimentado, ainda crentes na justiça de manter as “mãos dadas com o povo”. O que não quer dizer impossível mantermo-nos assim. É no povo que estão os leitores. Do povo vem o conteúdo de todas as matérias que justificam o trabalho dos que escrevem e investigam. É do meio do povo que há de surgir o Mundo Novo ansiado pelos que gostam de dar-lhe as mãos. Umberto Calderaro Filho sabia disso. Pena que se foi tão cedo...
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*Transcrito de A Crítica (16-04-2026), que hoje faz 77 anos.

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