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As Nações Unidas definem a violência contra as mulheres como "qualquer ato de violência de gênero que resulte ou possa resultar em danos ou sofrimentos físicos, sexuais ou mentais para as mulheres, inclusive ameaças de tais atos, coação ou privação arbitrária de liberdade, seja em vida pública ou privada".

A violência simbólica contra a mulher é a mais comum e o amparo legal para combatê-la é tênue, já que se manifesta pela imposição de valores morais, culturais e sociais. Ela ocorre e se reproduz naquilo que Althusser chama de Aparelho Ideológico de Estado, se incrustando no tecido social, sem que se apresente como uma violência, porque não é física.

A violência simbólica termina por se tornar a base cultural da violência física. Ela começa tirando da mulher seu lugar de fala, impondo o silêncio dos mortos. Para isso, o uso de valores morais, religiosos e culturais sustenta a submissão, o escárnio e a exclusão. Existe um tempo estruturado para a subjugação física, através da violência extrema e até mesmo da morte.

Essa violência, a simbólica, é a mais perniciosa, porque é ideológica e envolve o espírito das vítimas, afetando seu estado psicológico. Não ocorre por acaso. É um projeto de poder. Nem sempre foi assim. A subjugação da mulher se tornou realidade nas sociedades divididas em classes sociais, com uma classe oprimindo a outra, ou seja, ricos explorando e subjugando quem produz a riqueza.

Nas sociedades antigas, quando não havia a produção de excedente a partir das exploração do trabalho do outro, mulher e homem tinham funções sociais distribuídas de forma harmoniosa, para garantir a existência da família e do grupo social.

Na nossa sociedade, desde o surgimento das primeiras organizações daquilo que viria a se configurar como Estado, a opressão da mulher se tornou objeto de poder, seja do homem ou da classe social dominante. Isso criou uma estrutura social, cultural, política e ideológica, com valores, crenças, padrões estéticos, linguagens e supremacia racial para manter a dominação social e patriarcal.

Para quem quiser entender com profundidade a violência simbólica, sugiro a leitura de Pierre Bourdieu, sociólogo francês que desenvolveu o conceito.

E por que resolvi abordar esse tema hoje?

Me chamou muito a atenção nos últimos dias os ataques sofridos pela primeira dama do Brasil, a socióloga Janja Lula da Silva, pela mídia corporativa e pelos machistas e pelas machistas de plantão nas redes sociais. A manifestação da violência simbólica se abateu sobre a mulher Janja de forma sistêmica, impactante, preconceituosa e sórdida.

Como se trata de uma violência escondida sob o manto da moral e dos bons costumes, o patriarcado logo se tornou especialista em protocolo diplomático. Jornalistas, homens e mulheres, passaram dias atacando a primeira dama porque ela emitiu uma opinião - e tomou uma posição - ao presidente chinês sobre a desordem das mídias virtuais.

Nesse caso, houve a intenção de condenar uma interlocutora de qualidade, lhe tirar a palavra e colocá-la numa condução decorativa, de um lado, e por outro, porque ela incomodou a indústria de mentiras que usa o espaço virtual para criar uma realidade paralela. Janja não se intimidou, como deve ser com toda mulher que luta pela emancipação feminina.

No centro de toda ação, o protocolo reivindicado foi o do patriarcado e da dominação política e ideológica. Esse está no sangue da sociedade machista, misógina e opressora. O protocolo diplomático foi apenas uma cortina de hipocrisia para esconder a violência de gênero.


Lúcio Carril

Sociólogo

 
 
 

* De Marcelo Seráfico, além de sociólogo e professor, fotógrafo inspirado. Tomada na praia da Ponta Nega, Manaus-AM, ao fim da tarde de 21 de maio de 2025.
* De Marcelo Seráfico, além de sociólogo e professor, fotógrafo inspirado. Tomada na praia da Ponta Nega, Manaus-AM, ao fim da tarde de 21 de maio de 2025.

Cores crepusculares*


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*Márcia Bomfim, economista e empresária, colheu a imagem, de seu apartamento na Ponta Negra, Manaus-AM. De ângulo diferente do marido fotógrafo. A inspiração lhes é, dentre tantas outras coisas, comum.

 
 
 


Aline Mara Gumz Eberspacher *




Nas últimas semanas, o Brasil foi novamente confrontado com um escândalo que, embora revoltante, parece não ter despertado a indignação coletiva que se esperaria: a fraude no INSS que resultou no desconto indevido de valores das aposentadorias. Inicialmente, podem parecer cifras modestas, quase imperceptíveis no extrato mensal. Contudo, a soma desses pequenos golpes revela uma dimensão alarmante, com estimativas apontando para um prejuízo que pode alcançar a cifra de R$ 6,3 bilhões.

Reportagens recentes indicam que as deduções indevidas teriam começado antes de 2019. No entanto, o quadro se torna ainda mais sombrio com relatos de aposentados que descrevem o início desses descontos em datas tão distantes quanto 2006. Esses cidadãos, ao longo de anos, buscaram respostas e soluções, mas frequentemente se depararam com um jogo de empurra, sendo orientados a procurar as associações responsáveis, que, por sua vez, deveriam zelar por seus direitos.

Uma análise superficial poderia levar à tentadora, e politicamente conveniente, conclusão de que a responsabilidade recai sobre este ou aquele governo. Se considerarmos o marco de 2019, o problema teria emergido ou se intensificado durante a gestão Bolsonaro. Se retrocedermos a 2006, a origem remontaria ao primeiro mandato do presidente Lula. Contudo, o cerne desta reflexão não reside na atribuição de culpas partidárias, mas sim na incômoda constatação da inércia e passividade que parecem ter se tornado permanente na população brasileira.

É fundamental ponderar o impacto real dessas fraudes na vida de quem mais contribuiu. No Brasil, onde uma vasta parcela de aposentados, mais de 70%, sobrevive com rendimentos no limite do salário-mínimo ou pouco acima dele, qualquer desconto, por menor que seja, representa um rombo significativo em seu já combalido poder de compra. São valores que deixam de ser destinados à alimentação, medicamentos ou ao mínimo de dignidade na terceira idade. A questão que se impõe é: como um esquema dessa magnitude, lesando um grupo tão vulnerável, não foi capaz de mobilizar a sociedade?

O que surpreende, e de fato assusta, é a ausência de uma reação social robusta. Não se viram panelaços ecoando pelas janelas, passeatas ocupando as ruas ou qualquer outra forma de manifestação coletiva que expressasse a repulsa a esta situação e reivindicasse não apenas a interrupção da sangria, mas o ressarcimento integral, e preferencialmente com juros, aos lesados.

Essa aparente letargia social pode ser interpretada de diversas formas. Seria a falta de unidade, a desinformação crônica ou, quem sabe, uma descrença generalizada na própria potência e capacidade de transformação que impede os brasileiros de se levantarem contra as opressões? Parece haver uma aceitação tácita, um conformismo que permite que injustiças de toda ordem se perpetuem sem a devida contestação.

É preciso romper com o ciclo da omissão, unir forças e reivindicar ativamente os direitos que são sistematicamente ultrajados. A fraude no INSS é apenas mais um sintoma de uma doença maior: a passividade frente ao inaceitável. A mudança não virá de gabinetes ou decretos isolados, mas da pressão popular consciente e organizada, que exija respeito, transparência e, acima de tudo, justiça.

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* doutora em Sociologia pela Université Paul Valéry, na França

 
 
 
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