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Roberto Amaral*



“É mister bater, bater cem vezes, e cem vezes repetir: o direito não é um filho do céu, é simplesmente um fenômeno histórico, um produto cultural da humanidade”. Tobias Barreto. Ideia do direito, 1883.


O sionismo massacra o povo palestino dizendo que pune os guerrilheiros do Hamas, a resistência possível em meio ao desespero. A chamada “civilização ocidental” (mais indigna que nunca do título pomposo que se autoatribuiu) assiste, cúmplice, a uma limpeza étnica que muito lembra a paranoia nazista, interrompida com a derrota alemã na Segunda Guerra Mundial. Vai além do genocídio armênio (1915-1917), da partilha da Índia (1947), da tragédia da Bósnia levada a cabo pelo Ocidente (1992-1995), aproveitando-se do intocado vazio deixado pela falência da URSS.

A Europa, decadente mas ideologicamente ainda colonialista, embora servil ao Império, silencia diante de Gaza e condena o Irã pelos ataques que lhe movem EUA e Israel. A invasão da Ucrânia pela Rússia é definida como agressão a um Estado soberano, mas os bombardeios contra o Irã, que não atacou nem invadiu o território do adversário implacável, são considerados – nessa lógica viciada e hipócrita – legítimos, embora a Carta da ONU não tenha sido alterada nesse ínterim. Como condição para a paz necessária, a Europa e os EUA exigem que o país invadido não revide os ataques de que é alvo, e aceite uma capitulação incondicional, sob o risco de bombardeios avassaladores. A agressão, vendida como autodefesa, transmuda-se em virtude: o agressor é defendido e a vítima é condenada por defender-se.

Este é um tempo de subversão de valores, pois só se ouvem, só se leem e só se veem as razões do agressor. Como nos lembra George Orwell, em 1984: “Se todos os registros contam a mesma história – então a mentira torna-se verdade.” E, portanto, já não há mais nem uma coisa, nem outra. Reescreva-se a velha fábula: a vítima é o lobo.

A invasão do Irã (exigida há anos pelos media outlets) foi preparada durante largos meses, partilhada em seus pormenores táticos e estratégicos com os EUA e conhecida pela OTAN, o gigantesco porta-aviões do Império na Europa. No entanto, Emmanuel Macron, presidente de um país que realizou uma revolução para proclamar a trindade da liberdade, da igualdade e da fraternidade, reduz a agressão a mero “exercício do legítimo direito de defesa de Israel”, e a Alemanha, que inventou os fornos crematórios como destino dos adversários de sua escolha, antecipou-se a todos, condenando o Irã pelo que seu chanceler qualificou de “um ataque indiscriminado ao território israelense” – mesmo antes de Teerã responder ao bombardeio israelense!

Sem pejo, o Estado de S. Paulo, reflexo brasileiro da mainstream media, se permite afirmar: “O programa nuclear iraniano é uma ameaça existencial a Israel e, por isso, é um alvo legítimo. Ademais, interromper a escalada nuclear do Irã será um alívio para o mundo” (15/06/25). É preciso meditar sobre as consequências das premissas do que propõe a oligarquia paulista: se um Estado, sentindo-se ameaçado, pode esmagar o suposto adversário, tudo passa a ser permitido, e a invasão da Ucrânia pela Rússia é, assim, mais do que justa: necessária, e, por isso, moralmente justificada. Na mesma linha, a Rússia pode se sentir existencialmente ameaçada pelos dentes atômicos da França e da Grã-Bretanha, e daí tornar-se-à legítimo o bombardeio preventivo, de que também podem lançar mão, simultaneamente, o Paquistão e a Índia, avançando rumo à destruição mútua.

Diante da agressão dos EUA e de Israel, uma conclusão se impõe: se o Irã não possui armas nucleares (e só foi atacado porque provavelmente não as tem), agora está claro que precisa tê-las. E mostra-se acertada a custosa estratégia defensiva da República Popular da Coreia, pequenino país sobrevivente de uma guerra de extermínio que, apesar de tudo o que a realidade mostra, segue sendo pintado pela mídia ocidental como grande ameaça à paz mundial...

Em convescote nas Montanhas Rochosas do Canadá, os países do chamado G7 (Alemanha, Canadá, EUA, França, Itália, Japão e Reino Unido) saúdam os bombardeios, indiferentes às mortes de civis, tudo porque, segundo eles, Israel tem o direito de defender-se de um ataque que não houve, mas que poderia ter havido – e um dia poderá haver. É a razão cínica do mais forte escrevendo a história, sempre obra dos vencedores, com a licenciosidade moral de uma Europa envilecida à sombra do guarda-chuva nuclear dos EUA, de mãos livres no desfrute de um império tanto mais perigoso quanto mais vê ameaçada sua hegemonia.

A história se repete ao seu modo. Em 1938, os nazistas, sob o pretexto de que alemães estariam sendo perseguidos na Tchecoslováquia, invadiram os Sudetos, depois que o Acordo de Munique (“a paz por cem anos”, anunciada pela covardia inglesa) atapetara o terreno para a beligerância do 3º Reich. Em 2003, os EUA, que financiam, escoltam, armam Israel e operam militarmente na defesa de seu espaço aéreo, bombardearam e invadiram o Iraque, porque ele – há sempre um pretexto a aventar – possuiria armas atômicas, como aquelas que em 1945 os EUA (até hoje o único país a cometer esse crime) lançaram contra as populações civis de Hiroshima e Nagasaki.

O pretexto então alegado por Harry Truman para o massacre ignóbil era a necessidade de antecipar o fim da guerra, já definida com a queda de Berlim, mas a realidade ensinou que se tratava do vestibular da Guerra Fria. Evitando o confronto direto, os EUA diziam à URSS que o Exército Vermelho deveria conter sua marcha na Europa.

É a razão do lobo, a lei do mais forte consagrada nas fábulas de Esopo, reescritas por La Fontaine:

“Um lobo, com fome, vê um cordeiro bebendo água num riacho, mais abaixo. O lobo o acusa de sujar a água que ele (o lobo) está bebendo. O cordeiro responde, respeitoso: ‘Como posso sujar a água que bebes, se estou rio abaixo de ti?’ O lobo, então, muda a acusação: ‘Tu falaste mal de mim no ano passado.’ O cordeiro retruca: ‘Não poderia ter sido eu. Eu nem era nascido!’ O lobo, cada vez mais agressivo, inventa outras desculpas: ‘Então foi teu irmão. Ou teu pastor. Ou tua gente.’ Por fim, sem qualquer razão, o lobo ataca e devora o cordeiro.”

Para os lobos de hoje, os palestinos não deveriam estar onde sempre estiveram. O Irã se condenou à morte ao saltar fora da órbita desenhada pelo Pentágono para a Pérsia, quando a Revolução Islâmica, em 1979, pôs por terra a monarquia e instalou a república ao depor o xá Reza Pahlavi, no poder desde 1941, e chefe de uma ditadura sanguinária pró-Ocidente a partir da deposição do primeiro-ministro Mohammad Mossadegh pela CIA em 1953.

Tratar-se-ia de irrelevância fática a discussão segundo a qual o Iraque teria ou não armas nucleares (e de fato não as tinha), quando o fundamental era a acusação em si – comprovável ou não – de que Saddam Hussein possuía esse arsenal. De igual modo, hoje, é irrelevante apurar se o Irã detém ou não capacidade de enriquecer urânio, se amanhã, poderá construir um artefato nuclear e, ademais, se tem ou terá condições de atingir o território israelense. O relevante, para o sionismo e o trumpismo, que se fundem, é a construção política de um pretexto para justificar a agressão que a ideologia hegemônica reduz a mero exercício do legítimo direito à “autodefesa”, direito do qual, porém, Israel é o único portador no Oriente Médio.

Quando se comprovou que o Iraque não possuía armas nucleares, o país já havia sido devastado e a história se debruçava diante de um fato consumado. Hoje, combater a resistência palestina é o pretexto para o genocídio desse povo, a morte a granel de jovens, mulheres e principalmente crianças e a destruição de Gaza, futuro espaço livre terraplenado para os investimentos imobiliários de Trump.

A vida humana vê-se relegada à sua insignificância diante do poder avassalador da barbárie: o próximo passo é na direção do precipício sem chão.

É a lógica orwelliana da inversão da linguagem, que o escritor inglês vai beber em Ésquilo (525-456 a.C.): “Na guerra, a primeira vítima é a verdade.” O objetivo da guerra não é apenas derrotar o inimigo nas armas, tomar seu território, mas, também, conquistar “corações e mentes”. Os EUA sustentaram por anos que matavam os vietnamitas para salvá-los dos comunistas – o mesmo pretexto alegado para a invasão da Coreia (1950) e tantas outras invasões, diretas ou por procuração, e de tantos golpes de Estado.

A vitória ideológica permite sustentar como coerentes ideias contraditórias entre si, oximoros como “guerra é paz”, “ataque é autodefesa”, “agressor é vítima”. Por fim, manipular a linguagem para legitimar a razão do lobo, em que se esmeram os meios de comunicação de massa, tanto mais contundentes e tanto mais aparelhos ideológicos da classe dominante quanto mais modernos.

Quando Israel, secundado pela chamada opinião pública global, afirma que invadiu Gaza, ou bombardeou o Irã, ou o Líbano, ou a Síria, ou o Iêmen, para impedir um ataque que não houve (tratando como realidade uma ameaça fabricada), o mundo ingressa no que George Orwell definiu como lógica do duplipensar.

A “ordem baseada em regras” – o Direito Internacional – passa a ser regida por “regras” condicionadas pela razão do mais forte, que consagra o crime preventivo, punindo intenções que o agressor diz identificar nas mentes dos adversários que, para esse efeito, elege.

A razão do mais forte é sempre a melhor, pois é a que se impõe. Assim como o direito é o léxico da força que chegou ao poder. Não havendo limite ético ao poder, tudo está justificado, desde que tenha tido bom êxito – como lecionou Espinosa, o filósofo que a Inquisição portuguesa doou à Holanda.

Ao vencedor, as batatas.

 
 
 

                                                              Orlando SAMPAIO SILVA


                    Nas primeiras referências bíblicas, o patriarca líder condutor Abraão é citado com o nome Abrão (“pai exaltado”). Depois de muitos episódios em sua história de vida, ele passou a ser nomeado com o antropônimo Abraão (“pai de muitas nações”). Constam da Bíblia registros de dois povos dos quais Abraão, que era sumeriano, teria sido o “pai fundador”, por intermédio dos seus descendentes próximos, sendo esses povos os Hebreus/judeus e os Árabes.

                    A primeira mulher de Abraão foi Sara. Sendo Sara infértil, ela ofereceu ao seu marido a sua (dela) escrava egípcia de nome Hagar para ser concubina de Abraão. Sara, já idosa, mediante a intervenção dos poderes divinos, veio a ser mãe de Isaac. A segunda esposa de Abraão foi Quetura, com quem ele se casou ao tornar-se viúvo com a morte de Sara. Deste segundo casamento foram gerados os seguintes filhos: Zinrã, Jocsã, Medã, Midiã, Jisbaque e Sua. Estes filhos de Abraão se tornaram fundadores e chefes de tribos árabes. Então, o povo árabe estava na fase de sua constituição originária. Do concubinato do Patriarca com Hagar veio a ser gerado Ismael. Este filho de Abraão teve doze filhos, que fundaram doze tribos árabes e se tornaram príncipes árabes.

                    O povo árabe, nestes termos, é de procriação abraâmica. Para os árabes, Abraão se chama Ibrahim. Os árabes, que professam a religião mulçumana   - ou seja, a grande maioria da etnia -, são monoteístas, da mesma forma que nas crenças cultivadas na religião israelita e nas cristãs.

                    A ida de Abraão com Sara e com seu (dele) pai, acompanhado de seu sobrinho Lot ou Ló e toda a família extensa, toda a parentela que vivia em Ur (Suméria, na Mesopotâmia, Oriente Médio, região também conhecida como Crescente Fértil), para a Terra Prometida, ou seja, para Canaã, também no Oriente Médio (onde hoje se encontram o Estado de Israel e os palestinos), é o signo bíblico que aponta para a constituição do povo hebreu/judeu. Segundo a concepção fundadora de povos por filhos de Noé, a partir de Sem, foi se formando o povo Hebreu. Descendentes de Sem vieram a ser os Patriarcas dos hebreus, a saber: Abraão, seu filho Isaac e o filho deste, Jacó, sendo este, portanto, neto de Abraão.

                  Foi então que Abraão, cumprindo a missão que lhe foi atribuída pelo seu Deus único, partiu, acompanhado de sua parentela, para a Terra Prometida (Canaã). Em Canaã nasceram Isaac e Jacó. Deus prometeu uma terra para os Hebreus, sendo esta terra Canaã, que se tornou assim a “Terra Prometida” ao “povo de Deus”, ou seja, aqueles que Deus considerava ser o seu povo, os Hebreus. Registre-se que apenas a três gerações depois de Abraão, com os filhos de seu neto Jacó, é que se efetivaram os fatores concretos, substantivos, fundadores do povo Judeu. Foi a partir das ações fundadoras de filhos de Jacó que o povo judeu começou a ser constituído enquanto coletividade humana numerosa com identidade própria caracterizada pela crença religiosa monoteísta. Observação: A religião hebraica, formulada com cânones e valores formais, com cerimoniais e com corpo sacerdotal, apenas surgiria séculos depois, com Moisés.  Antes da ida para Canaã, os Hebreus (ou seja, os pertencentes à linhagem étnica vinda de Sem, filho de Noé) nasceram a viveram na Suméria, mas diferente do seu entorno cultural, eram monoteístas.

                  Então, conforme vimos acima, até a ida de Abraão com sua parentela para Canaã, não existiam os Judeus ou Hebreus constituído em um povo com localização territorial. Esta espacialização veio a ocorrer na “Terra Prometida”. Nesta   - Canaã -, então, viviam os Cananeus ou Canaanitas (povo que teria sido criado por Cam, filho de Noé) e uma multiplicidade de outros pequenos povos.

                  Quanto à língua falada por Abraão e sua parentela que emigraram de Ur (Suméria) para Canaã, evidentemente era o sumeriano. Na vivência em Canaã, foi-se operando a incorporação ou adoção, pelos que chegaram, da língua cananéia no convívio com os cananeus.

                  Este povo em formação passou a ser referido, no Velho Testamento e no História da Antiguidade, como Hebreu, Israelita e Judeu. Estas denominações, cf. o “livro sagrado”, se originaram de três personagens bíblicas. Hebreu de Éber ou Heber (sendo este descendente de Sem, filho de Noé, antepassado de Abraão e tido como o instituidor do povo Hebreu); Israelita (em face do patriarca Jacó, que passou a se chamar Israel, nome que lhe foi atribuído pelo próprio Deus); Judeu (decorrente de Judá, filho de Jacó e fundador da tribo de Judá, uma das 12 tribos). (Continua)

 
 
 


Roberto DaMatta*



Não estamos testemunhando um processo destinado a esclarecer um crime comum, urdido e cometido por marginais; estamos atônitos assistindo ao supremo magistrado da nação ser acusado de tramar contra o regime democrático que ele jurou preservar e, numa lambuja cruel, seus auxiliares mais próximos e poderosos como chefe de gabinete, ministros e, pasmem, comandantes das Forças Armadas e de órgãos de inteligência.

Que dizer numa crônica desse espetáculo vergonhoso, negado pelo negacionismo ideológico dos asseclas e mal-educados apoiadores?

É elite governamental envolvida num inexequível golpe de Estado “dentro das quatro linhas”, um projeto que é cabível somente na cabeça de quem transcende os limites da racionalidade e acha possível acender velas a Deus e ao diabo. Algo, aliás, típico do nosso adoentado sistema político.

Acresce a tudo isso um relator que muitos pintam como promotor, mas que, nos seus interrogatórios, arrola documentos, declarações e reuniões reveladoras de índoles e anseios antidemocráticos dos golpistas gorados, confirmados nas desculpas evasivas e inermes dos interrogados.

As inquirições podem desagradar aos golpistas, mas não se pode negar seu nível de competência, num contraste fulminante com as pífias performances dos acusados e com a pusilanimidade de seu herói.

O que tenho visto nesse vergonhoso evento, que, infelizmente, não é o único de nossa História, corta o coração de um velho como eu. E envenena o dos jovens e de quem pensava a História como progressiva, mas verifica que, no Brasil, ela marcha para trás.

Graças à nossa estadomania, à estadofilia e à estadopatia, “fomos” tudo: reino, monarquia, República Velha e Nova, ditadura e duríssimo regime militar. Só nos falta legalizar o ladravaz salvacionismo populista.

São múltiplas as motivações da trama golpista. Polarização, anistias, urna eletrônica como instrumento de roubo eleitoral, populismo salvacionista, nacionalismo estatizante contra iliberalismo.

Mas o que tenho testemunhado e aqui discutido é o avacalhamento das responsabilidades coladas nos cargos públicos por ocupantes que não honram seus encargos e suas demandas de impessoalidade, seja por malandragem, seja por motivos políticos. O poder à brasileira matou a dialética entre cargos e encargos, e assim escalamos canastrões para cargos públicos cruciais, pondo em risco a democracia e a própria confiança no país. Sem o enlace entre pessoa e papel, cargos públicos como o de presidente correm o permanente risco de ser ocupados por canastrões e perdem sua legitimidade como instrumentos de transformação coletiva.

O que dizer, pois, desses rituais em que valentes viram pusilânimes, senão reafirmar que o mundo vive uma enorme incoerência destrutiva? Prova cabal dessa incoerência é o indefensável, contraditório e inexecutável golpe “dentro das quatro linhas”.

__________________________________________________________________________________*Antropólogo, autor de diversas obras sobre sua especialidade e a sociedade brasileira. O texto foi editado no Estado de São Paulo, 18-06-2025.

 
 
 
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