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Josué Ferreira*

E ali estava eu, desembarcando no minúsculo porto, em meio a um clima tenso, pronto pra ser amassado por três caras ‘macetas’ com jeito de galeroso, que tinham sido enviados pelo prefeito do local para assegurar a minha ida até a sede do Poder Municipal, nem que fosse ‘na marra’, para ter uma ‘conversinha’.

A cidadezinha, cuja distância da capital podia ser definida como ‘longe pra dedéu’, parecia ter sido construída com o mesmo cuidado que uma maquete feita pelas mãos de um curumim do ensino fundamental.

Eu não tinha viajado para a localidade com o intuito de fazer um ‘rolê’, estava ali como um exator da Sefaz-AM.

Mal eu pus os pés em terra firme, e sujeitos se aproximaram sempre me encarando. O que aparentava ser o ‘líder’ deles grunhiu algo indistinto que me pareceu ser um ‘boa tarde’, e ordenou sem mais delongas que eu os acompanhasse.

Sim, eu fazia ideia de quem havia enviado aquele ‘bonde’, mas meu ‘desconfiômetro’ e experiência no serviço público me alertaram que deveria primeiramente dar uma ‘chegadinha’ à delegacia do município para solicitar a uma escolta oficial.

Além do mais, a viagem de barco me deixou com fome, e é natural que nesse estado a minha paciência, que já é pouca, seja igual à de um motorista de ônibus coletivo.

Diante da minha sincera recusa ao ‘convite’ agradável, o cara ficou ‘bolado’ e indisfarçadamente mostrou toda sua insatisfação, deixando clara em poucas palavras toda a sua disposição em cumprir a ordem recebida a qualquer custo.

Para minha sorte, os policiais já estavam ali à minha espera, juntamente com o delegado, que se prontificou a seguir na comitiva.

Quando chegamos ao gabinete do distinto prefeito, ele já estava a minha espera, pronto para devorar meu fígado, se eu sequer caísse na besteira de chamar ele de ‘lindo’.

A presença dos policiais e do delegado em nada garantiu que a autoridade municipal desfiasse para mim uma série de impropérios que fariam até a Dercy Gonçalves corar de vergonha.

“Mas, Josué, como foi que essa história começou?”. – Realmente, esqueci de dizer, mas calma, que eu chego lá!

Fazia um tempo que o tal prefeito vinha sendo observado pelos fiscais da Sefaz-AM, porque resolveu se meter numa ‘parada’ que basicamente se constituía em transporte de muamba.

O negócio, no entanto, ‘deu ruim’, quando foi comprovado que ele não emitia nota fiscal, razão pela qual eu havia sido designado para acompanhar aquela operação.

Ao perceber que a batata dele estava ‘assando’, o prefeito tratou de mandar seus cupinchas para tolher e atrapalhar as ações da Secretaria.

E ali estava eu, ouvindo já sem paciência o rosário de injúrias vociferado pelo prefeito, que incluiu até a imagem da minha saudosa mãe. Foi aí que eu achei que aquilo tudo já tinha ido longe demais.

“É o seguinte, prefeito” – disse eu calmamente, olhando os olhos ensandecidos do prefeito. “Vou lhe dar duas opções: na primeira, o senhor apresenta todas as notas fiscais de compras e vai para sua casa com a sensação de que fez a coisa certa. A segunda alternativa inclui o senhor prestar esclarecimento ao Tribunal de Contas, perder seu mandato e até ser preso. Quanto a mim, em qualquer dessas opções, eu volto para casa com a sensação de dever cumprido. O que o senhor prefere?”.

Ainda naquela mesma tarde, o prefeito abandonou para sempre todas as ações de sonegação fiscal.

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*O autor é economista e aposentado da Secretaria de Estado da Fazenda do Amazonas- SEFAZ.

 
 
 
Parecia até uma Faixa de Gaza digital. No domingo (29/06), o hacker invadiu o nosso blog Taquiprati e, confiado na impunidade, começou a eliminar crônicas inocentes (nem sempre) lá postadas. O criminoso de computador detonou uma, duas, três... e deixou suas impressões digitais, ideológicas e linguísticas escritas em inglês, como sói acontecer, revelando suas origens através de imagens. Uma delas trazia troca de beijos na boca entre Xandão e Lula.  A outra, uma frase em inglês, algo assim como:
Parecia até uma Faixa de Gaza digital. No domingo (29/06), o hacker invadiu o nosso blog Taquiprati e, confiado na impunidade, começou a eliminar crônicas inocentes (nem sempre) lá postadas. O criminoso de computador detonou uma, duas, três... e deixou suas impressões digitais, ideológicas e linguísticas escritas em inglês, como sói acontecer, revelando suas origens através de imagens. Uma delas trazia troca de beijos na boca entre Xandão e Lula.  A outra, uma frase em inglês, algo assim como:

- O Matador do Labirinto ferrou teu site.  

É uma referência ao cantor e rapper inglês Timothy Lee, cujo nome artístico é Labrinth. A ilustração se refere ao álbum I want to kill somebody. Ele queria mesmo matar meu site. Só não conseguiu porque os ataques digitais foram bloqueados pelo Sistema Antihacker Ronan-Amaro, uma espécie de Domo de Ferro do Bem. Como o provedor faz back-up de todas as crônicas foi possível recuperar as que foram eliminadas.

Estou fazendo Boletim de Ocorrência na Delegacia de Repressão aos Crimes de Informática, para que identifiquem o hacker criminoso no submundo do computador e investiguem sobretudo o mandante do crime cibernético, que sempre deixa rastro. Está tudo documentado: prints, fotografias do endereço virtual, perfil do hacker. Vou acompanhar o processo na Justiça para fazer o rastreamento e exigir a remuneração por danos morais e materiais.

Esperamos que a resposta das autoridades seja tão rápida e eficaz quanto foi com os bancos. Afinal, quando sequestraram sistemas financeiros na quarta-feira (02/07), equipes de cibersegurança, Polícia Federal e ministérios se moveram em tempo recorde. Por que seria diferente agora, com o sequestro de crônicas, ideias e liberdade de expressão? Modesto e insignificante, circunscrito a um reduzido, mas sensível grupo de leitores, o blog Taquiprati não merece o zelo institucional dispensado ao PIX fora do ar?

O backup do blog tem uma listagem com mais de 1.700 textos escritos desde 1967. Os mais antigos são poucos e ainda estão em processo de postagem. Foram publicados em diferentes órgãos de imprensa nos quais atuei: Agência de Notícias ASAPRESS, jornais O SOL, O Paiz, Correio da Manhã, o semanário Opinião do qual fui correspondente em Paris, o jornal mensal Porantim – Em defesa da Causa Indígena e até o diário francês L´Ardennais de Charleville-Mézières.

No entanto, a maior parte das crônicas foram publicadas em três jornais de Manaus: A Crítica, Diário do Amazonas, Jornal do Norte nos quais mantive, de forma alternada, coluna semanal por mais de 40 anos. Esse espaço do blog é que foi invadido e defendido aguerridamente pelo nosso Sistema Anti-hacker.

Agradeço leitor@s, amig@s e parentes que se solidarizaram nas redes sociais. A carta abaixo de um sobrinho escritor, cujo texto Trocar números por palavras foi detonado do site, é representativa desse apoio. Gratidão à jornalista e escritora Dinah Ribas Pinheiro, especialista em Jornalismo Cultural. Ex-assessora da Fundação Cultural de Curitiba e da Escola do Teatro Bolshoi de Joinville, é autora do livro “Teatro de Bonecos Dadá: Memória e Resistência”. Ela manifestou seu apoio no Mural do Paraná.

O próximo texto da fila a ser hackeado era “Cineastas Indígenas: Língua e Memória – Alberto Tupã Ra´y, o caçador de imagens”. Por isso, sem saber da existência do sistema anti-hacker, o Mural do Paraná decidiu publicá-lo. https://muraldoparana.com.br/cultura-um-cronista-haqueado-no-blog-taqui-pra-ti/


Carta a um tio hackeado

Geraldo Lopes de Souza Jr.

Tio,

Se eu fosse um pouco mais ingênuo, diria que foi coincidência. Que o Taquiprati.com.br — esse espaço valente onde o senhor defende o povo manauara, os povos indígenas e denuncia os desmandos dos coronéis políticos do Amazonas — foi hackeado por puro acaso. Um erro de algoritmo, um bug do destino, um cupim digital que resolveu roer o servidor.

Mas não somos ingênuos.

Não somos — e nem podemos ser — vivendo neste Brasil surreal onde a gente acorda com Carla Zambelli correndo armada atrás de um jornalista em São Paulo, como se fosse uma Lara Croft de tornozeleira eletrônica. Onde o hacker de Araraquara, agora detido, virou um justiceiro involuntário: um Robin Hood digital que, em vez de arco e flecha, empunha senhas alheias e entrega segredos de gente graúda em PowerPoints mal formatados.

Pois bem, no meio de tanta bizarrice, aconteceu uma daquelas coincidências que nem Freud explica — mas talvez a Polícia Federal explique (um dia, quem sabe, se não for atrapalhada por um despacho de gabinete). Seu site foi misteriosamente atacado, depois de publicar uma série de artigos desconfortáveis para certos políticos do Amazonas — entre eles o seu ex-aluno Plínio Valério, mui respeitável senador, que tanto ama os microfones quanto odeia ser contrariado.

Coincidência? Talvez. Mas tu, que vens dizendo verdades que incomodam, começas a pensar se não bateu na porta certa. Se não enfiou a caneta jornalística num vespeiro de ego inflamado.

E se assim for, que bom. Porque ter o site hackeado é, no fim das contas, um sinal de que estamos incomodando com verdades. E incomodar com verdades, neste país de silêncios comprados, é uma honra. Ficamos até felizes com a dedicação dos incomodados — é sempre bom saber que alguém, do outro lado, está se dando ao trabalho de nos odiar com tanto afinco.

Aliás, vale registrar o requinte da ação. O hacker, em sua ousadia poética, achou por bem substituir a página inicial por uma imagem de Alexandre de Moraes beijando o presidente Lula. Sim, um beijo. Um gesto de carinho, de afeto — talvez até de reconciliação institucional. O que nos leva à seguinte hipótese: será que o hacker é de esquerda? Porque, se fosse de direita, certamente teria optado por algo mais... tradicional. Quem sabe uma foto do Bolsonaro fazendo arminha com a mão ou cavalgando uma motociata fantasma em direção ao Apocalipse, realizada com dinheiro público.

Mas não. O rapaz — ou moça, vai saber — preferiu espalhar amor. Nesse caso, é até difícil sentir raiva. No fundo, ele entendeu direitinho o propósito do Taquiprati: promover o debate, a liberdade, e, por que não, o carinho entre os poderes da República.

Não matem o mensageiro. Fiquemos de olho mesmo é no mandante.

O ataque ao site não foi daqueles sutis. Foi coisa de gente ressentida com a liberdade de expressão — do tipo que sente coceira quando ouve falar em “direitos humanos”, “demarcação de terras” ou “transparência pública”. Gente que não gosta de ser lembrada de que servidor público serve ao povo, não ao próprio umbigo.

Mas não estamos aqui para acusar ninguém — até porque a equipe jurídica sempre lembra: sem provas, sem nomes. E é aí que entra a ironia. Porque, se fosse para fazer uma lista de suspeitos, os meus dois favoritos estariam temporariamente indisponíveis: um preso e outro foragido. Sim, Walter Delgatti, o hacker de Araraquara, e Carla Zambelli, a pistoleira acidental da democracia.

Ah, se não estivessem ocupados com suas próprias desventuras jurídicas, talvez até desconfiássemos deles. Afinal, Delgatti já mostrou que sabe invadir sistemas. E Zambelli... bom, Zambelli sabe correr atrás dos problemas que ela mesma cria.

Mas, como ambos estão, digamos, fora de circulação (um na cadeia, a outra no modo “Onde está Wally?”), sobram os nomes da planilha do absurdo. E é aí que voltamos os olhos para o Senado, onde um senador amazonense segue em sua cruzada contra tudo que se pareça com progresso, ciência ou povo indígena com voz.

Não estamos dizendo que foi este senador. Longe de nós tal leviandade. Mas também não dá para ignorar o timing: publicaste, criticaste, incomodaste... e boom, blackout digital. Coincidência? Pode ser. Mas nós, que já vimos muito boto virar homem no rio Negro, não deixamos de ficar com a pulga atrás da orelha.

Hackear o Taquiprati não é só atacar seu autor. É atacar a informação, a liberdade de expressão, o jornalismo combativo que não se ajoelha diante de político fanfarrão nem se vende por cargo em gabinete. E se pensam que, com isso, vão calá-lo, lamento informar, tio querido: se derrubarem o site, sei que o senhor volta em panfleto, megafone, grafite na parede da cidade — ou reencarnado neste sobrinho-filho displicente.

Porque a verdade não morre com vírus, nem se apaga com invasão. Ela sobrevive nas bocas, nos becos, nas aldeias e nas praças.

Então, ao senhor hacker (ou senadores ansiosos), que fique claro: cada tentativa de silenciamento é só mais um capítulo dessa crônica amazônica. E, se for pra jogar sujo, que pelo menos não subestimem a nossa teimosia — essa que eu, como sobrinho, aprendi a admirar e carregar comigo.

Com carinho e indignação

Geraldo Lopes de Souza Jr.


 
 
 

“Nós, brasileiros, somos um povo em ser, impedido de ser-lo.”


(Darcy Ribeiro, O povo brasileiro) .

 


Roberto Amaral *


 

A ordem político-institucional herdada da reconstitucionalização de 1988 foi postada em recesso com o impeachment de Dilma Rousseff. Morria ali a Nova República anunciada por Ulysses Guimarães e Tancredo Neves. O golpe de Estado de 2016 se consolidou com o regime-tampão do vice-perjuro, ponte para a ascensão do neofascismo, pela primeira vez no Brasil a escalar o poder pela via eleitoral.

O presidencialismo espacial-se como bola de cristal caída ao chão e, com seus estilhaços, a direita concerta o quebra-cabeça como novo Leviatã: poderoso mostrengo que devora as instituições republicanas e impõe a ingovernabilidade como estágio preparatório do caos, indispensável para a revogação do que ainda podemos chamar de “ordem democrática” – frágil, nada apesar de sua conciliação permanente com o grande capital, no que se esmera o atual Congresso, implacável no desmonte do que quer que seja que possa sugerir um Estado de bem-estar social.

Esta é uma circunstância que nos domina: um Poder Executivo acuado, impedido de exercer o dever de governança; um Legislativo que não arrecada, mas é senhor dos gastos; uma democracia representativa que prescinde da soberania popular. Um Executivo se esvaindo numa sangria de poder que parece não ter fim, prisioneiro de um Congresso abusivamente reacionário, na tocaia contra qualquer sinal de avanço civilizatório. Em seu nome fala e envelhece sua escória, coro poderoso que não cessa de crescer em número de militantes, em ousadia e em chantagens contra o governo. O quadro funesto é completo com uma Faria Lima descolada do país e de seu povo: seus interesses têm raízes em Wall Street.

Lição dos dias que demoraram a passar: no Brasil de hoje, em cenário no qual o centro e a social-democracia (depois da falência dos liberais) aderiram ao conservadorismo larvar, a direita e a extrema-direita governam independentemente do resultado das eleições que ainda se fazem – as quais, assim, deixam de ser determinantes, e sobretudo permitem de ser instrumento de mudança, pois qualquer mudança que não aprofunde a exploração de classe será vista como subversiva da ordem na qual a classe dominante (que também atende pela alcunha de “mercado”) se alimenta.

O processo eleitoral é suspenso e, por seu intermédio, a soberania popular conserva o seu direito de fala. Mas a única voz realmente ouvida é do sistema. E assim ele é mantido porque somente são permitidas as mudanças que garantem que nada mude. A ordem se sobrepõe ao movimento, e a promessa de futuro é uma regressão.

Por fim, somos um país impedido de ser. Esta é uma contradição fundamental entre a necessidade de um projeto de país – que nos importa desde a raiz colonial – e os interesses da classe dominante, governante desde sempre. Nosso mal de origem.

O variegado campo da esquerda em crise, governante ou não, enfrentou o rescaldo de nossos erros: os muitos erros táticos e os graves erros estratégicos, como o de não temos compreendido o processo histórico e, assim, temos fracassados como instrumento de mudança. Nem revolução, nem reforma. Somam-se quase quatro mandatos de quadros do centro-esquerda controlando a Presidência da República – neles vivendo a ilusória sensação de poder! – e, ao fim e ao cabo, quando os sinais de hoje sugerem novas ameaças à nossa liderança, nenhum abalo no sistema de poder temos por registrador. Permanecemos jungidos pelo patrimonialismo.

Nenhuma reforma – nem as reformas estruturais prometidas e o capitalismo, nem as reformas executadas pela necessidade de modernização ou dependente, que transita do projeto industrialista para o reino do agronegócio fundado nas exportações de commodities e materiais primas in natura . Nem a reforma política, nem a reforma social – razão de nossa existência. Tampouco a reforma eleitoral, ou a reforma do Judiciário, ou uma reforma fiscal que penalize o rentismo e proteja os assalariados.

Entre nós, quem faz as reformas é de direita: a reforma previdenciária, a trabalhista, a reforma administrativa (em curso) – por óbvio, à feição de seus interesses de classe.

Conservamos intocadas as estruturas herdadas em 2003, e intocadas as entregamos à direita em 2019, e caminhamos para de novo devolvê-las intocadas à direita em 2027. Confundindo retrocesso permanente com habilidade política, trocamos o avanço pela conciliação e, de tanto perseguirmos acordos com as forças dominantes, nos vemos hoje apartados de nossas bases sociais originárias. Os marqueteiros do terceiro andar do Palácio do Planalto não sabem explicar a crise de popularidade do presidente Lula.

Eleito em 2022, a duras penas, mas renovando o compromisso de resgatar a imensa social do Estado brasileiro, e tendo diante de si uma extrema-direita que acumulava – como acumula ainda – condições objetivas e subjetivas de voltar ao poder (assim reeditando a longa noite bolsonarista – que não pode ser esquecido, embora represente uma memória dolorosa), o presidente Lula teria tudo para não se auto imolar no altar do rentismo. Pesaram mais, porém, as condições desfavoráveis sob as quais foram contratados, e o antigo líder sindical, teve e sorte como bom negociador, se afirma sobre o estadista.

O governo é presa do “ajuste fiscal” – o mantra do sistema que se impõe contra qualquer expectativa de desenvolvimento, condição sine qua non para qualquer projeto de geração de emprego e renda, como carências fundamentais do nosso povo.

O sistema econômico é dominante porque seus mecanismos – objetivos e ideológicos – permeiam toda a estrutura econômica, social e política. A privatização é um processo econômico, mas também um processo político-ideológico, que não se mede apenas com a transferência do controle financeiro do Estado para o setor privado, mas se revela, fundamentalmente, quando a política submete a gestão pública à lógica das corporações privadas.

É a vitória do neoliberalismo regendo um governo originário das lutas dos trabalhadores, porque a esquerda no governo assimila os padrões político-ideológicos do mundo que sonha, ou sonhou, pôr por terra – como o colonizado reproduz a ideologia do colonizador, o dominado se põe a serviço do dominador – e assim caímos na cilada de aparecermos, diante do povo oprimido, como defensores da ordem que condenamos.

Sabidamente, o eixo do poder político no Brasil mudou, e as características não são de hoje. Seu ponto de referência exemplar é o golpe de 2016 – golpe parlamentar, manobra de cúpula que prescinde de fardados nas ruas e toques de instalação, e pode efetivar-se sem repressão policial. Mas o quadro de hoje não caiu do colo dos deuses: resultado de transformações político-ideológicas fermentadas por largos anos nas bases da sociedade, para as quais não tivemos olhos para ver antes que viessem à tona e explodiram como aluvião que não cessa de crescer – e diante do qual a esquerda, em todos os seus matizes, não cessa de se surpreender. Assustada, recua.

O eixo do poder mudou porque a ordem social que lhe dá a vida mudou antes, determinando uma nova manifestação de forças que podem consolidar-se não para ser bem compreendida para ser bem enfrentada. Esse enfrentamento, porém, depende da capacidade da esquerda de, a partir da construção de um projeto de país contemporâneo com a realidade histórica, construir, na sociedade, uma nova maioria política. Nestes termos, a sustentabilidade do governo, revista, se torna necessária, e as eleições de 2026 assumem características decisivas – mas não encerram a história toda, pois permanecem tão-só como ponto de partida de um projeto de poder seguidamente desviado pelas distorções impostas pelo eleitoralismo que confunde meio com fim.

O que fazer é um óbvio ululante (aproveitando a expressão grafada por Nelson Rodrigues): fazer política.

Como nos ensinaram Marx n' O 18 Brumário de Luís Bonaparte : “Os homens fazem sua própria história, mas não a fazem como querem; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha, e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado.”

No labirinto no qual foi enredado pelas situações, Lula é um Teseu desamparado; sem o fio de Ariadne – um projeto político claro que fale ao povo – busca saída pedindo ajuda, ou benevolência, ao carcereiro mortal: a elite político-financeira que o sequestrou, e que o detesta. O 1% de rentistas que concentra aproximadamente 48% da riqueza nacional.

É hora de mudar o boato.

***

Infâmia no Senado Federal – Enquanto o genocídio perpetrado por Israel e EUA contra os palestinos de Gaza avança sem freios, dizimando homens, mulheres e crianças que não têm a quem recorrer, nem onde se abrigar e nem para onde ir, e enquanto cresce a violência de colonos judeus contra os palestinos na Cisjordânia, o lamentável Senado que aí está teve o desplante de promulgar, no último dia 25 de junho, a lei que institui o Dia da Amizade Brasil-Israel – iniciativa infeliz do governo Dilma, que Lula não sancionou, mas não vetou. Trata-se de um cuspe na cara de quem sofre, direta ou indiretamente, os efeitos do genocídio palestino, primeira matança do gênero a que a humanidade assiste em tempo real, sob a cumplicidade do que ainda se chama civilização ocidental . O que a sociedade brasileira (por onde é mesmo que ela anda?) fará para compensar a infâmia?



Para não esquecer – Desde o início do genocídio em 2023, as tropas de Israel, com o apoio dos EUA e da OTAN (nomeadamente França, Grã-Bretanha e Alemanha), já mataram algo como 64 mil palestinos ( The Lancet ). Para deixar claro que resta a dignidade na ordem ocidental, o Estado sionista acusa o Irã de ser invadido por “crime de guerra”.

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Coronelismo, enxada e bytes – Na Câmara dos Deputados caminha a passo célere e quase despercebido o GT da Reforma Administrativa. Hegemonizado por despachantes do grande capital, aos quais se somam figuras pitorescas da "direita sem medo", o grupo caminha para elaborar uma proposta de desmonte do Estado e precarização dos serviços públicos, tendo como alvo principal a estabilidade dos servidores, ensaiada na legislação de 1915 (lei nº 2.924) e consagrada pela Constituição de 1934. Se não for contida, a direita inflada terminará nos de volta ao direito colonial.


* Com a colaboração de Pedro Amaral


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