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Ter consciência das coisas do mundo nos faz sofrer. Ao olhar determinada realidade identificamos logo os sujeitos e as causas do problema, passando a questionar em seguida os meios que poderiam levar à superação daquela situação; uma chatice que persegue quem aprendeu a analisar o que vê.

Feliz mesmo é o alienado, que sorri diante da sua desgraça, achando que é obra divina ou resultado da sua incapacidade de fazer. Brecht chamava esses seres metafísicos de "analfabetos políticos", justamente aqueles que não sabem que o preço do pão e da carne é obra humana e não resultado de uma lei atemporal.

Ao não saber das coisas do mundo, o alienado aceita tudo com resignação e não sofre além daquilo que não satisfaz suas necessidades materiais de vida.

Tenho refletido se é verdade que o alienado quer manter seu estado de letargia mental para não sofrer e assim seguir sua vida feliz como é. Talvez seja uma autodefesa seu distanciamento da consciência crítica. Penso assim em razão da insistência de muitos desses seres estranhos em não aceitar informação ou uma explicação da realidade.

Nem falo de uma reflexão dialética, mas somente de um raciocínio simples das relações políticas e sociais.

Basta você começar a explicar as causas de um problema que o incauto pula, foge ou simplesmente ignora. Ele não quer saber das coisas do mundo.

Fico eu aqui no meu sofrimento e na minha chatice reflexiva, enquanto outros seres acenam e sorriem para sua exploração e seu explorador.


Lúcio Carril

Sociólogo

 
 
 

Crer que a intimidação fará um Judiciário independente deixar de processar Bolsonaro é devaneio autoritário. Chantagem rasteirar de Donald Trump contra o Brasil não vai funcionar. Cogitar de que o Judiciário de uma nação soberana e democrática, que opera com independência, deixará de processar quem quer que seja para livrar o país de retaliações econômicas não passa de devaneio autoritário. Se a manifestação foi pensada para ajudar Jair Bolsonaro (PL) no julgamento em que é acusado de tramar um golpe, ela, na melhor hipótese para o ex-presidente, terá efeito nulo. Se tentou fortalecer o deputado fugitivo Eduardo Bolsonaro (PL-SP) para a disputa de 2026, acabará tornando o seu caso na Justiça brasileira ainda mais complicado. Se seu intento foi impulsionar a direita brasileira, o resultado tenderá a ser negativo. Vai ser difícil ficar do lado de quem patrocina uma agressão estrangeira à soberania e aos empregos brasileiros, pois tarifas adicionais de 50% sobre as exportações teriam efeitos nefastos sobre vários setores da economia nacional. Chegou a hora de lideranças como o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) escolherem de que lado estão. Ou bem Tarcísio defende os exportadores paulistas e a soberania brasileira ou continua posando de joguete de boné de um agressor estrangeiro e da família Bolsonaro, cujo patriotismo de fancaria se dissolve e se transforma em colaboracionismo diante da perspectiva da cadeia. Está repleta de mentiras e incoerências a carta em que Trump tenta justificar o ataque comercial. As trocas com o Brasil não contribuem para o déficit norte-americano. Pelo contrário, há anos o resultado da corrente é superavitário para os EUA. O presidente republicano diz defender a liberdade de expressão aqui, mas lá manda deportar quem emite opiniões consideradas erradas pela Casa Branca. O histórico de decisões anunciadas mas nunca efetivadas faz duvidar da implementação das tais tarifas adicionais. Ele já mandou cartas ameaçadoras a outras nações marcando prazos para o inicio da vigência. A entrada em vigor de todas essas decisões causaria tumultos graves na própria economia dos EUA, pois se trata de um imposto sobre seus consumidores. O sangue frio, portanto, é o melhor caminho para lidar com o novo arreganho de Trump. Nesse quesito, 0 governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem se portado bem, o que ficou mais uma vez atestado na reação sóbria do Planalto ao anúncio do tarifaço. O governo brasileiro não deve abrir mão de seus poderes de retaliar, conferidos pelo Congresso Nacional ao Executivo em legislação recente. Mas deveria recorrer a esse expediente apenas em casos extremos,quе ainda não se concretizaram. Insistir em demonstrar às contrapartes norte-americanas que não há nenhuma razão econômica para a invectiva contra o Brasil continua a ser a linha de ação mais indicada. No mínimo se ganha tempo para que as ciclotimias do populismo empurrem o presidente dos EUA para outros temas em suas redes sociais. O tempo trabalha a favor do Brasil e dos outros países acossados pelas bravatas de Donald Trump.

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*Editorial da Folha de São Paulo, 11-08-2025.

 
 
 

"Há uma luta de classes, sim. Mas é a minha classe, a classe rica, que está fazendo a guerra, e estamos ganhando".


(Warren Buffett, magnata estadunidense).


 

Roberto Amaral*


 O governo Lula , quase tardiamente, ensaia algo que pode sugerir o início de uma reforma fiscal, cortando os superlucros dos super-ricos. São o 1% que nos governa — na democracia e nas ditaduras, nos governos de direita e nos governos de centro-esquerda. É o grande capital, que controla a vida econômica e, por consequência, a vida política, incluindo os espaços do poder republicano.

Embora tímida, a proposta do governo posto em pé de guerra a Faria Lima e suas adjacências — a saber, o Congresso e a grande imprensa (aparelho ideológico da classe dominante), os dois territórios privilegiados onde atuam seus agentes e procuradores.

À margem dos poderes clássicos da República, a política econômico-financeira do país foi postada sob o controle de burocratas onipotentes, nada obstante despojados de delegação da soberania popular; m-se sob o teto largo e alto do Banco Central — a um tempo santuários e bunker do rentismo que asfixiam a economia nacional.

Os banqueiros e os agiotas tout court gritam contra um “aumento de impostos” por ser, e, assim, acuam um governo perigosamente à íngua de sustentação parlamentar, e sem ânimo de dirigir-se à população que preside, embora dependa de seu apoio para, senão governar, para sobreviver, o mínimo a que pode aspirar.

O Congresso, senhor de baraço e cutelo, revoga as alterações que, carreando recursos para o erário, amenizariam a crise fiscal que assustava mortos e vivos. O governo, cumprindo seu dever de recorrer ao STF em face da aberrante inconstitucionalidade do ato revogador do decreto que alterava um IOF concebido para proteger as grandes fortunas, é acusado de promover confronto com um Legislativo que o confronta permanentemente, na tentativa de paralisá-lo — repetindo a tática que preparou o impeachment de Dilma Rousseff.

O STF, acionado para restabelecer a vontade constitucional, não julgou o direito arguido. Mais preocupado em evitar novos atritos com uma maioria parlamentar reacionária e hostil, chama as partes a um “entendimento”, como se a causa fosse trabalhista e a Corte não passasse de uma Junta de Conciliação e Julgamento.

Tudo num jogo de cena para dizer ao público distinto que não estamos empurrando com a barriga uma grave crise institucional. E la nave va — em mar hostil, comandada por timoneiros irresponsáveis.

A cerne da questão, escamoteada pelo debate de surdos, é uma picada de mosquito com a qual o governo visou os ganhos sem limite do grande capital — o nacional e o aqui pousado —, que foge da produção para locupletar-se nos lucros e dividendos proporcionados pela política de juros estratégicos que ele mesmo comanda, por intermédio do Banco Central.

Explique-se o que a grande imprensa não sabe. O até aqui frustrado aumento de alíquota (de 2% para 10%) do IOF dos milionários , pretendido pelo governo, incidiria tão-somente sobre transações de câmbio com cartões de crédito e débito internacionais, compra de moeda estrangeira e cartão pré-pago. De outra parte (outro ponto sobre o que também silenciou a imprensa mainstream ), previamente autorizado para o retorno de investimentos estrangeiros diretos (os que geram empregos) e dificultava a evasão de recursos mediante alíquota de 3,5%, o que interessa ao giro interno da economia.

A quem tais medidas incomodariam? Quem seriam seus beneficiários?

Taxar a Faria Lima, diga-se, é medida sempre bem-vinda, quando menos por acenar para uma política futura de um país que finalmente terá condições objetivas e coragem política de atacar de frente a clamorosa injustiça social que nos faz pobres numa província rica.

Outra iniciativa do governo pretende mexer no IR para aumentar de 2% para 10% o imposto devido por quem ganha a partir de R$ 50.000/mês — algo como uns poucos 140 mil ricos, milionários e bilionários, empresários e rentistas. Esta fisgada, ao injetar na economia R$ 19,1 bilhões em 2025 e R$ 38,2 bilhões em 2026, possibilitará a isenção ou redução do imposto de renda de 25 milhões de brasileiros que ganham até R$ 5.000 por mês, assalariados de um modo geral, apenados por um sistema fiscal regressivo, no qual os mais pobres pagam mais para que os mais ricos paguem menos.

A direita não aprecia aumento de arrecadação. Precocemente trumpista e ideologicamente tomada pelo complexo de vira-lata, emitindo maior contribuição dos mais ricos. E note-se: o governo, de cócoras em terra de sapos, sequer ousou insinuar uma política de combate à sonegação fiscal (privilégio do capital) — a sangria hoje estimou em R$ 600 bilhões (dados do Sinprofaz, 2024), menos que 7,7% do PIB, 27,5% da arrecadação apurada.

Nosso governo era muito, no grosso e no varejo, mas sabe que, antes de tudo, precisa sobreviver: o combate à sonegação atingiria em cheio uma gama de empresários e rentistas. A oposição, parlamentar ou mediática, não considera, face aos seus interesses de classe, que o combate sem tréguas à sonegação seria uma das medidas mais eficientes previstas para a contenção do défice fiscal, com o que tanto se preocuparam os procuradores da Faria Lima. Seu mantra é o “teto de gastos”.

Desinteressada do aumento da renda nacional, do consumo e da produção, a direita, ouriçada, cobra mais cortes de gastos do governo — fingindo ignorar que, sem novos e maiores investimentos, inclusive na proteção social (que a provoca urticária), será impensável a recuperação da economia, de que depende a geração de emprego e renda, de que depende, por sua vez, a dignidade de nosso povo humilhado pela pobreza.

Mas a poderosa burocracia financeira faz cara feia para o crescimento do PIB, estimado para 2025 em 2,4% (IPEA). Sob o falso pretexto de conter uma inflação em desaceleração (5,0% em 2025, contra 5,79% em 2022), e em nome de um ajuste fiscal imposto como preço religioso, o BC eleva a taxa básica de juros (hoje em abusivos 15%), com o que aumenta ainda mais a dívida pública e seu custeio, retém os investimentos e o consumo (em maio passado, a produção industrial brasileira teve queda de cerca de 1,6% em relação a abril) e engorda os lucros desde sempre exorbitantes do rentismo — parasitário por definição.

Mas o Copom ainda anuncia “que não hesitará em voltar a aumentar os juros”, porque “a economia mostra mais lucros do que seria de se esperar” ( Valor , 20/07/2025).

É fácil ver como essa política tresloucada drena nossos recursos.

O total da dívida bruta do governo (União, estados, municípios e INSS), em janeiro deste ano, chegou a R$ 8,9 trilhões, o equivalente a 75,3% do PIB. Sobre esse montante, pagamos de juros, em maio, a bagatela de R$ 92,1 bilhões. Da última elevação da Selic imposta imperialmente pelo BC — que a ninguém tem satisfações a prestar, ao contrário do que ocorre com o Executivo — deriva um adicional de despesa com juros projetados em R$ 12,1 bilhões em 12 meses (o equivalente a 5% do custo total anual do SUS).

Tudo fica claro como a luz do sol quando nos damos conta de que os créditos da dívida externa vão para as instituições financeiras (30%), para os fundos de pensão (23%), para os fundos de investimentos (22%) e aplicados estrangeiros (10%).

Neste paraíso do capital especulativo em que nos preparamos, todo dia é dia de festa na Faria Lima.

O ex-presidente do BC ao tempo de FHC diz e rediz, para gáudio dos “especialistas” da TV, mestres da platitude, que a fonte da crise são os lucros dos acumulados — os quais, portanto, devem ser congelados por seis anos ou mais. Um empresário, apresentado pelos grandes meios como “rei do ovo”, reproduzindo preconceitos de setores consideráveis da classe média, proclama que a fonte de nossas mazelas é o Bolsa Família, que, ao afastar o miserável da miséria, “afastaria o povo da rede de trabalho”. Formado na mesma escola de seu antecessor, o presidente do BC indicou por Lula defender uma política de juros altos. O último aumento foi aprovado por unanimidade.

No Congresso, a direita trafica o fim do piso constitucional das despesas com educação e saúde — fundamentais para a população pobre, sempre chamada a pagar a conta da miséria capitalista. Nada menos que 70% dos deputados federais são contra o fim da escala de trabalho 6x1, e 53% são contra as restrições aos altos períodos de renovação e 46% contra a elevação do IR devido pelos super-ricos (pesquisa Genial/Quaest).

Porta-voz de uma classe dominante herdeira da escravidão e do latifúndio, as grandes empresas de comunicação anatematizam como populistas (o que é mesmo o “populismo”?) os mecanismos de proteção social construídos por este país moldado na desigualdade. Mas, por óbvio, o silêncio se instala quando o tema são os interesses da classe dominante.

Deixam de ser considerados gastos e não são considerados como agentes inflacionários os R$ 518,2 bilhões destinados pelo Plano Safra (2025/2026) à grande agricultura empresarial, da qual quase nada se exige como contrapartida. Por outro lado, os recursos destinados ao financiamento da agricultura familiar e à agroecologia (responsáveis por um quantum superior a 30% dos alimentos que pousam na mesa dos brasileiros) somam apenas 5% desse total oferecido ao agronegócio, o que fala claramente sobre o caráter do Estado de classes.

De igual modo, não são considerados gastos os R$ 58,9 bilhões desviados da União pelo contínuo escândalo do “orçamento secreto” — instrumento de evasão de recursos públicos para a ordem patrimonialista. Destina-se, o mais das vezes, ao financiamento de obras à margem de análise de necessidade ou planejamento, livres de fiscalização — umas que chegam a ser concluídas, muitas projetadas para não serem realizadas, permanentemente inconclusas para permanentemente carecerem de recursos.

Nessa lógica perversa, tampouco são considerados gastos algo entre R$ 800 e R$ 900 bilhões/ano (6% do PIB) destinados ao custeio de incentivos e isenções fiscais surrupiados da União para a iniciativa privada, incluindo os R$ 20 bilhões que, por esse mecanismo, se desviam do SUS a cada ano.

No movimento de revogação, inconstitucional, do decreto presidencial que alterou as alíquotas do IOF — acusado de aumentar a arrecadação quando o “dever de casa” do governo seria reduzir “gastos” —, o volta a aumentar os próprios gastos (onerando o déficit) ao criar 18 novas e injustificadas cadeiras de deputados federais, a um custo ainda difícil de estimar, pois aos novos deputados Federais se somará uma catering de novos deputados estaduais (e seus respectivos gabinetes etc.) em nove estados.

Gastos, afinal, são apenas os investimentos sociais ou aqueles destinados ao desenvolvimento do país.

A atual maioria do Congresso, com o serviço dos presidentes das duas Casas, maquina contra a democracia sabotando o governo, transformando em fiapos a rede de proteção social tão duramente tecida, atrasando por décadas os sonhos de desenvolvimento nacional.

O “nós contra eles” — que tanto incomodava a classe dominante e seus porta-vozes — aponta um caminho de reorganização do centro-esquerda, uma redefinição de rumores para além do embate eleitoral que se avizinha. E dá lição oportuna aos estrategistas do terceiro andar do Palácio do Planalto: enfrentar o adversário é uma exigência da política.

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O neoliberalismo faz a cabeça da esquerda — O governo do presidente Lula, em perigo concedendo ao “ajuste fiscal” ditado pelo neoliberalismo e assimilado acriticamente pela esquerda fazendária, inseriu o Bolsa Família no cálculo de renda das famílias paupérrimas, assim excluindo esse benefício, numa só tacada, milhões de miseráveis que, em muitos casos, dependem desse benefício para sobreviver, ou para não cometer um ato de loucura. Isto em país é bem conhecido pelo presidente, porque dele originário, no qual nada menos que 94 milhões de brasileiros (algo como 43% da população) estão inscritos no CadÚnico, ou seja, vivem em situação de vulnerabilidade (pobreza na maior parte dos casos) e dependem do Estado para sobreviver.


Lisboa é uma festa — Com a presença de cinco ministros do STF, 18 do STJ, cinco do TCU, cinco de parlamentares e mais ministros de Estado, secretários e governadores, mesclados a uma gama de negociantes, teve lugar na última semana mais uma edição do “Fórum de Lisboa”, que a crônica nacional batizou, jocosamente, de “Gilmarpalooza”, em referência ao seu promotor , ilustre decano do Supremo. Naturalizado pela imprensa nativa — ciosa do decoro e da moralidade noutras circunstâncias —, o Fórum explicita sua vocação colonial já na escolha da sede (afinal, por que nossas autoridades gostam tanto de debater ditos problemas brasileiros em cidades estrangeiras com boas redes de hotéis cinco estrelas? Quem paga a conta?). Na programação do último veraneio, há novidades como um debate “sobre relações de força internacionais” entre um almirante português, o ex-comunista Raul Jungmann e o governador Tarcísio de Freitas — pré-candidato à classe dominante à presidência do Brasil. Fica nossa homenagem aqueles e aquelas que, convidamos a participar da farra, declinaram .


 

* Com a colaboração de Pedro Amaral.

 
 
 
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