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Desde o século XIX que tem gente anunciando o fim da história. Hegel sentenciou que o liberalismo era o auge da humanidade e o prenúncio do fim dos processos históricos. No século XX, Francis Fukuyama comemorou o triunfo do capitalismo e da democracia liberal, após a queda do Muro de Berlim e a desagregação da União Soviética.

O certo é que estamos vivos e enquanto houver vida ninguém tomará dois banhos no mesmo rio.

A história continua e tem no antagonismo de classes sua força motriz. O mundo não pode acabar enquanto houver tanta desigualdade e injustiça. Anunciar o fim da história é anunciar o fim do mundo, o fim de todo movimento, da física, da política, das ciências humanas e sociais.

Como estamos vivos e a luta continua, quero chamar atenção das almas sonhadoras e persistentes no projeto de uma sociedade justa e igualitária para umas questões que me afligem.

1 - O STF é parte de um Estado classista, que existe para defender os interesses da classe dominante. A justiça é classista. O fato da suprema corte estar cumprindo sua missão constitucional não pode servir de cortina de fumaça para encobrir seu papel histórico. Alexandre de Moraes tem sido um ministro honrado e comprometido com a constituição, mas ele não é do nosso lado, do lado dos excluídos. Não se espante quando ele estiver nos ferrando.

2 - A Globo e toda mídia patronal são golpistas e servem somente aos seus interesses. Se um dia elas foram contra o golpe, isso não as torna menos sórdidas. A mídia corporativa é um aparelho ideológico de Estado e o Estado é burguês.

3 - Nossos aliados políticos são apenas aliados. Eles não compõem nosso bloco histórico que almeja por transformação social. Hoje estão com a gente, mas amanhã estão com nossos inimigos. Foi assim com o centrão e foi assim em toda história política do mundo. Não podemos nos iludir e defender essa gente como se fosse parte da nossa vida de militante.

4 - Nossas composições eleitorais não são de classe. Elas apenas correspondem a um momento político. Talvez aqui resida o equívoco da esquerda em não criar um bloco histórico que lute pelo socialismo e por uma democracia participativa. Então, não se apaixone pelos candidatos de fora, nem por nossos aliados eventuais.

5 - Putin não é de esquerda (ele é de direita) e a Rússia deixou de ser socialista início dos anos 1990. A Rússia desde lá é capitalista, daí Fukuyama ter anunciado o triunfo do capitalismo e da democracia liberal, e Putin foi eleito pela força dos "oligarcas", uma elite formada por milionários e bilionários russos. Claro, entre Rússia e EUA, estamos com a Rússia, porque ela faz parte dos BRICs e enfrenta o império americano. Mas não faça defesa apaixonada de Putin e da Rússia.

Esses alertas servem apenas para quem tem o olhar histórico da luta política e social, quem sabe que a história não acabou e que o capitalismo não é o melhor sistema para embalar nossos sonhos de justiça e solidariedade. Fica a primeira dica.



Lúcio Carril

Sociólogo

 
 
 


Em: 25 de Agosto de 2025

Tags: Literatura Povos Indígenas Taquiprati analfabeto digital

Já deu para notar que o blog continua o mesmo – Taquiprati. Mas o ganhou um novo autor: Geraldo Lopes de Souza Júnior, um sobrinho-filho, estatístico, passa a exercitar aqui o prazer da escrita, o que ele faz com muita criatividade. Com ele compartilho o encantamento por contos, romances e poesias da literatura universal. Estamos agora compartilhando o blog. Ele ajuda esse pobre analfabeto digital a sobreviver nesse mundo das novas tecnologias. De vez em quando, prometo voltar com um texto ou outro. https://www.taquiprati.com.br/cronica/1780-o-drama-digital-de-um-ativista


 
 
 

Frei Betto*

Seremos tão ingênuos a ponto de acreditar que Eduardo Bolsonaro teve poder suficiente para convencer Trump a abrir uma guerra econômica contra o Brasil, e ainda exigir como botim a anulação de todos os processos que têm por alvo seu pai, o cabeça da tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023?

Ora, não nos esqueçamos que Trump era, antes de se envolver em política, um animador de auditório. Assim como Silvio Santos e Milei. Um histriônico que domina a arte de chamar a atenção sobre ele. Seu programa de TV, "The Apprentice" (O Aprendiz), estreou em 2004.

O formato era um reality show de competição empresarial. O estilo do programa refletia bastante a imagem que Trump cultivava na época: empresário direto, competitivo, com postura autoritária. A imagem de “chefe que decide quem fica e quem sai” reforçou a ideia de que Trump era decisivo, durão e competente em negócios — qualidades que ele depois usaria para aparecer como “líder forte” na campanha presidencial. Ao anunciar sua candidatura em 2015, ele já conquistara um público que o via como um “solucionador de problemas” e “chefe nato”, graças à persona criada no programa.

Por isso, Trump faz da política seu show e da Casa Branca seu palco, provocando efeitos surpreendentes sobre a plateia global. Gostem ou não do espetáculo, o nome dele figura inevitavelmente, todos os dias, em todos os noticiários.

O que incomodava o capitalismo ocidental após a Primeira Grande Guerra era a emergência da União Soviética. Daí o “sanduíche” sobre o território comunista: Alemanha de um lado, Japão do outro. No entanto, as duas nações decidiram repudiar o capitalismo e o comunismo e impor seus impérios nazifascistas ao mundo. Foi preciso então a Europa recorrer aos EUA para derrotar o monstro no qual se transformara a bela Medusa.

“Espelho meu, espelho meu, há alguém mais poderoso do que eu?”, se pergunta Trump todas as manhãs ao mirar o reflexo de seu rosto “averanjado”, mistura de vermelho e laranja.

O que incomoda Trump não é o processo contra seu aliado Bolsonaro. É o crescente protagonismo do Brasil no cenário internacional. Sobretudo o êxito do BRICS, o Sul Global, o bom entendimento de nosso país com grandes potências, como China, Rússia e Índia. Incomoda a Trump a decisão de regular o funcionamento das Big Techs em território brasileiro. As Big Techs são, hoje, os olhos e ouvidos dos EUA. Querem fazer a cabeça dos usuários, espioná-los, captar seus perfis como consumidores, esquadriar suas preferências políticas.

Incomoda a Trump o Brasil não aceitar o papel de “república de bananas”, manter-se como mero consumidor de produtos manufaturados e exportador de produtos primários, hoje chamados elegantemente de “commodities”. Incomoda a nossa soberania, a nossa independência, o fato de Lula não se sujeitar a pegar o telefone e ligar para ele suplicando por negociar tarifas.

Lula faz muito bem em não ligar. Trump que tome a iniciativa. Se Lula ligar, a relação entre os dois países ficará ameaçada, pois Trump pode se destemperar como fez com Zelenski e querer passar um sermão em Lula. Nesta hipótese, só restaria a Lula bater o telefone, o que ecoaria como símbolo de ruptura. Ou Lula revidar, o que representaria cair no jogo espúrio do arrogante ocupante da Casa Branca.

Os EUA sabem que estão perdendo a hegemonia mundial. Outros atores lhe roubam a postura de ator principal. Por isso, defendem o globalismo e combatem o multilateralismo.

Hoje, o imperialismo já não usa as mesmas armas do passado: marines, intervenção armada, mísseis, golpes de Estado. Usa armas mais sofisticadas, como as redes digitais. Usa robôs e algoritmos para alterar resultados eleitorais, divulgar fake news, exaltar os aliados (vide o relatório de direitos humanos divulgado por Trump na segunda semana de agosto, em que isenta Israel, El Salvador e Arábia Saudita de qualquer violação...) e intervir na economia interna. Incomoda a Trump o Pix não ser controlado pelas corporações estadunidenses de cartões de crédito e o governo estadunidense não poder rastrear as transações financeiras feitas pelos brasileiros.

A guerra econômica é, hoje, a grande arma de Washington, como os bloqueios a Cuba e Venezuela, Irã, Coreia do Norte e Rússia. Sobretudo, o tarifaço! Ao fazê-lo pesar sobre quase todos os países, Trump deu um tiro no pé. Convenceu inúmeros governos de que ser aliado aos EUA custa caro e prejudica a economia nacional. Sem dúvida isso virá reforçar o multilateralismo. E o tema da governança mundial voltará à pauta das nações. Porque é hora de escolher entre soberania ou sujeição à soberba trumpista.

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*Frei Betto é escritor, autor do romance sobre o período colonial, “Minas do Ouro” (Rocco), entre outros livros. Livraria virtual: freibetto.org

Assine e receba todos os artigos do autor: mhgpal@gmail.com

 
 
 
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