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Marcelo Seráfico

e José Alcimar*



Nos EUA como no Brasil, o debate público, quando ocorre, não está assentado em fatos. Predomina a lógica das "narrativas", entendidas como fragmentos de verdade absoluta, não como interpretações constituintes da própria realidade. A realidade, permanentemente atropelada, é o que menos conta nesse jogo de simulação e espetáculo. Afinal, e ao pensar com Heidegger, que coisa habita essa linguagem, que o insigne pensador alemão caracterizava como morada do ser?

Na hora em que as interpretações se encerram em si mesmas, elas se tornam doutrinas, não guardando uma gota de compromisso com a compreensão do oceano que lhes deu origem. Nenhuma dúvida persiste, cabendo apenas encontrar uma sequência de argumentos lógicos ou ilógicos que satisfaça a confirmação do que se quer afirmar. Quando refratário à dúvida e à crítica, o conhecimento não pode “aspirar ao sincero respeito, que a razão só concede a quem pode sustentar o seu livre e público exame”, como exigia Kant.

Essa atitude já foi, e talvez ainda seja, comum à parte da esquerda, especialmente do pseudomarxismo, que de fato é um positivismo que substitui a dialética pela mecânica na observação da história. Dialética e positivismo não se banham no mesmo rio. A diferença, contudo, entre essa "esquerda" e as direitas, a extrema em particular, é que para esta a história simplesmente não importa. Como não importa, no campo político o desafio deles não é a "educação política popular", mas sim a "funcionalização política da ignorância", sem o que não sobrevive o mal chamado “pobre de direita”, na verdade, pobre de direitos.

Ignorar é desconhecer, não saber. Para a extrema direita, a ignorância é um pressuposto necessário à dominação. A própria ideia de cidadania, por exemplo, não faz nenhum sentido, pois ela implica uma relação consciente dos indivíduos com o Estado, uma relação pautada por deveres e direitos cujo fim seria, de um lado, conter os conflitos da sociedade de classes e, de outro, pavimentar o caminho rumo à igualdade e liberdade. Isso, evidentemente, numa interpretação liberal e funcionalista, o que, nesses tempos de afronta à cultura, de falsificação da história e de destruição da memória até indicaria um patamar superior de consciência. A globalização do raso se impõe.

Queremos crer que Durkheim concordaria com esse argumento. Como sabemos, ele, apesar de um reformador, era um conservador. Hoje, seria visto como comunista e poderia estar filiado ao PT ou ao partido Democrata dos EUA como um de seus membros mais radicais. A "lógica das narrativas" desfez a unidade de referência epistemológica das visões de mundo. Ao assumir as narrativas como verdades absolutas, as pessoas se fecharam em dois universos superpostos, ambos avessos a qualquer proximidade com a história.

O primeiro deles são as "bolhas" produzidas pelas plataformas de virtualização das relações sociais. Nelas, reúnem-se, forjam-se e retroalimentam-se ideologicamente os "grupos de pertencimento" que compartilham "identidades". O segundo desses universos é o do "indivíduo narcísico", aquele para o qual sua própria subjetividade e as experiências que a constituem equivalem à totalidade do real. Sua visão de mundo, se fosse rigorosa, poderia ser chamada de "individualismo metodológico"; não sendo, é puro e simples solipsismo. Talvez pior, um solipsismo heteronomizado, carente de subjetivação.

A superposição desses dois universos de sociabilidade e de construção social das subjetividades tem um resultado paradoxal: dá origem a grupos de sujeitos isolados cuja unidade político-ideológico-afetiva é a "vontade de impotência", de conferir a terceiros a salvação do que sentem como sofrimento, desamparo, isolamento, angústia. Um tipo de desespero descategorizado, desprovido de mediações.

Não estamos falando, portanto, de um "tipo tradicional de ignorância", aquela que decorre da falta de acesso à informação e à educação. Estamos falando da ignorância como projeto de dominação política, a ignorância como perspectiva pedagógica e pressuposto político para a emergência e afirmação de instituições autoritárias. Não há dado estatístico ou evidência histórica suficiente para demover os extremistas de direita à frente do Estado e na sociedade civil de que o que dizem não corresponde à realidade. Presidida pela dissonância cognitiva, a mentalidade extremista foi programada para rejeitar tudo que excede sua visão programada, por mais objetiva que seja a realidade.

A "realidade" que lhes interessa é apenas e exclusivamente a dos que vivem aprisionados nas "bolhas de idiotização", vistas estas como o espaço de socialização privilegiado para a difusão do projeto e o encaminhamento do processo pedagógico. Infelizmente, essa realidade também é verdadeira para os ditos liberais, particularmente nos EUA. A diferença, porém, é que para eles os "inimigos" podem protestar. Mas objetivamente, oprimem, como os de extrema direita, cidadãos de dentro e de fora do país. A barbaridade é a mesma, porém, dissimulada em uma série de contenções.

Estamos de acordo, por tudo isso, que parte da estupefação quanto ao momento histórico que vivemos, vem da frustração de uma expectativa deixada pelo positivismo e suas várias expressões à direita e à esquerda do espectro político: a frustração da possibilidade de progresso como sinônimo de igualdade e liberdade na ordem capitalista.

Ao invés disso, vemos alargarem-se as fronteiras do Estado de exceção. Quem não era alcançado por ele e esperava não ser, agora é. A luta de classes numa situação como essa exige uma imaginação política ainda em gestação. No passado, ela levou à criação de associações, sindicatos e partidos, muitos operando em escala internacional. E hoje? Como recuperar luta de classes, seja como fato objetivo que se impõe, seja como leitura epistêmica e método de objetivação da sociedade de classes, seja como estratégia política?

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*(Professores dos Departamentos de Ciências Sociais e de Filosofia da Universidade Federal do Amazonas)

 
 
 

Marcelo Seráfico*


No dia 16 de setembro, a toque de caixa, como parece ocorrer sempre na Câmara Federal, formou-se uma rede partidária nacional, unindo suas excelências num empreendimento já lucrativo, mas que agora tende a ser ainda mais seguro.

344 empreendedores fecharam esse negócio, frustrando o compromisso público de 133. Dentre os "business men" estão pessoas levadas à Câmara por partidos que vão do centro à extrema direita.

Apenas os partidos identificados com o espectro político da esquerda e da centro-esquerda votaram contra a Emenda Constitucional 03/21, cujo fim é assegurar a suas excelências as condições necessárias a empreenderem sem riscos, sem que seus esforços sejam constrangidos pelas regulações do Estado, uma das quais, quando funciona, é extremamente prejudicial à lucratividade dos negócios: a Justiça.

A Emenda, agora incorporada à Constituição, protege os deputados do Povo, esse personagem incômodo da história nacional e internacional.

O Povo, do qual são extraídos os votos para elevar à condição de deputados pessoas de distintas origens e áreas de atuação, agora pode ter certeza do que já desconfiava: 2/3 dos parlamentares eleitos com seu voto aspiram a paz, tranquilidade e estabilidade sem as quais os empreendimentos, econômicos ou não, ilegais são constantemente assombrados pelo cárcere, o único fantasma que lhes dá algum medo.

A PEC da Bandidagem, como vem sendo furiosamente chamada pelos perplexos cidadãos. Esta, a bandidagem, que que sabe fazer da dificuldade uma oportunidade, que do limão faze limonada, já pode fixar à frente do monumento do Poder Legislativo nacional, a placa em lâmpadas de led verde e amarelas: VENDEM-SE SERVIÇOS DE LIMPEZA GERAL E IRRESTRITA.

Se restava à patuléia alguma dúvida de que os senhores por ela investidos de poder, nada querem para ela e por ela, chegou a hora da certeza.

O voto dos 344 deputados federais liberando a si mesmos para as mais diversas e criativas formas de ilicitude, é uma declaração de libertação do legislativo. Os senhores deputados promulgaram sua própria liberdade, com assinatura firmada em cartório: declaramos para os devidos fins não temos nada a ver com quem nos elegeu!!

Agora, sim, podem ocupar seus CPFs com os CNPJs que lhes garantem uma vida plena e abundante. Poderão, mantida a indecência, dedicar-se aos negócios que os entretém e concentrar-se na defesa dos interesses de quem os paga.

Viva a livre, desregulada e canalha iniciativa!!!

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*Sociólogo, professor do Departamento de Ciências Sociais da UFAM.

 
 
 

Guga Chacra*


O governo de Benjamin Netanyahu comete genocídio na Faixa de Gaza, segundo a Comissão de Inquérito das Nações Unidas. O governo de Netanyahu comete genocídio em Gaza, segundo a Anistia Internacional. O governo de Netanyahu comete genocídio em Gaza, segundo o Médicos Sem Fronteiras. O governo de Netanyahu comete genocídio na em Gaza, segundo o Human Rights Watch. O governo de Netanyahu comete genocídio em Gaza, segundo o grupo Save the Children. O governo de Netanyahu comete genocídio em Gaza, segundo a Associação Internacional de Estudiosos do Genocídio, que reúne mais de 500 acadêmicos. O governo de Netanyahu comete genocídio em Gaza, segundo David Grossman, que talvez seja o maior escritor israelense vivo. O governo de Netanyahu comete genocídio em Gaza, segundo a entidade de defesa de direitos humanos israelense B’Tselem. O governo de Netanyahu comete genocídio em Gaza, segundo grupo israelense Médicos para os Direitos Humanos. O governo de Netanyahu comete genocídio em Gaza, segundo lideranças internacionais de nações democráticas como os presidentes da África do Sul, Chile e Brasil.

Poderia seguir listando mais uma série de entidades e governos que acusam o governo de Netanyahu de cometer genocídio em Gaza. Sei que o governo de Netanyahu repudia essas acusações e afirma lutar contra o Hamas, depois de a organização terrorista matar cerca de 1.200 israelenses e sequestrar 251 no atentado de 7 de outubro. Sei também que a Corte Internacional de Haia ainda não tomou uma decisão sobre a acusação feita pela África de Sul e uma série de países de que o governo de Netanyahu comete genocídio em Gaza. Ao mesmo tempo, o Tribunal Penal Internacional já pediu a prisão de Netanyahu por crime de guerra.

Membros radicais do governo de Netanyahu defendem abertamente a limpeza étnica dos palestinos na Faixa de Gaza. Alguns vão além e querem a limpeza étnica também na Cisjordânia. Netanyahu afirmou na semana passada que "não haverá um Estado palestino". Sempre escrevi ser repugnante quem não reconhece o direito de Israel existir. É tão repugnante quanto não reconhecer o direito de uma Palestina independente existir. A não ser, claro, que Netanyahu concedesse cidadania para os 5 milhões de palestinos dos territórios. Mas o primeiro-ministro é contra uma Palestina independente e contra um Israel englobando os palestinos dos territórios com direitos iguais.

Acompanho o conflito faz décadas e decidi ser jornalista com o sonho de um dia cobrir um acordo de paz entre israelenses e palestinos. Nunca vi, ao longo deste período, Israel tão isolado. TVs da Irlanda e da Holanda querem a expulsão de Israel do Eurovision. O premier da Espanha, Pedro Sánchez, quer a suspensão de Israel de competições esportivas internacionais, como ocorreu com a Rússia de Putin e a África do Sul do apartheid. Turistas israelenses são hostilizados na Grécia e na Itália. A maior parte dos eleitores de Nova York simpatiza mais com os palestinos do que com os israelenses — algo impensável dois anos atrás.

E a culpa é de uma pessoa que se chama Benjamin Netanyahu. Com ele no poder em Israel e as atrocidades cometidas em Gaza, cada vez mais pessoas, entidades, governos e pessoas do mundo todo farão a acusação de que ocorre um genocídio. Como escrevi aqui no passado, algumas não o fazem pelo temor de serem chamadas de antissemitas, ainda que culpem especificamente o governo extremista de Netanyahu.

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*Correspondente da Globo News em Nova Iorque.

 
 
 
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