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Republicano é um agente da História, mas também é um sintoma dos nossos tempos. Ele um dia sairá das nossas vidas, mas o trumpismo, provavelmente, não


Tony Volpon*


“O que passa pela cabeça deste homem?” deve ser hoje a pergunta mais comum entre políticos, empresários e qualquer pessoa prestando atenção ao que está acontecendo com a economia global. Uma das dificuldades de responder a pergunta é a grande antipatia — chegando ao ódio — que boa parte do mundo sente por Trump, especialmente pela forma agressiva e desrespeitosa com que ele tem tratado até os mais próximos aliados dos EUA.

Mas erra quem se deixa levar pela emoção ou quem acredita que Trump é um pesadelo que deve acabar com sua saída da cena política e, assim, voltaremos à normalidade. Trump é um agente da História, mas também é um sintoma dos nossos tempos. Ele um dia sairá das nossas vidas, mas o trumpismo, provavelmente, não.

Além disso, traçar uma estratégia coerente de como lidar com os EUA tem que levar em conta dois outros fatores. Primeiro, a concorrência secular deflagrada pela ascensão econômica e tecnológica chinesa — temos em Xi Jiping o outro grande agente histórico dos nossos tempos. Segundo, e intrinsecamente ligada ao primeiro, a revolução tecnológica, econômica e social devido ao surgimento da inteligência artificial que está somente no seu início.

Contextualizar tudo isso é um desafio analítico da maior complexidade, mas alguns parâmetros já podem ser definidos e devem ser reconhecidos. Começamos pelo sentido político do trumpismo (deixaremos as questões sobre a China e a inteligência artificial para futuras colunas).

Trump é Trump desde os anos 80. Podemos acusá-lo de várias coisas, mas não de incoerência em suas crenças fundamentais. Sua posição anti-imigração e o apoio à tarifação de importações não são novidades. Mas ninguém o levou a sério como político durante várias décadas. Sua surpreendente vitória em 2016 e a menos surpreendente —mas mais consequente —vitória em 2024 mostram que quem mudou não foi Trump, mas os EUA na última década.

É um lugar comum acreditar que o sistema internacional pós-derrocada do comunismo soviético inaugurou um período de globalização regido pelo interesse dos EUA, uma Pax Americana para os americanos. O que o trumpismo reconheceu é que essa globalização foi na verdade em benefício de uma pequena elite concentrada em alguns setores e geografias. A apropriação dos ganhos e divisão de custos foi altamente desigual, e não por acaso os ganhos se concentraram nos bastiões progressistas nas duas costas do país, em cidades como Nova York, Los Angeles e São Francisco.

É isso que gera ressonância política para sua oposição à imigração, o agressivo uso de políticas tarifárias para industrializar a economia e os ataques aos “bastiões” institucionais da elite progressista, como as universidades. Esse populismo econômico acaba se associando a um nacionalismo “nativista” pela crença de que a elite progressista desdenha valores tipicamente americanos, pregando uma visão cosmopolita neutra que não admite julgamento de valor entre etnias, culturas, religiões e “estilos de vida”. De fato, uma parte importante dessa elite eleva os “oprimidos”, definidos por uma lógica interseccional, como sendo superiores aos “opressores”. Isso tem gerado uma forte contrarreação — especialmente no eleitorado masculino — ajudando a definir o trumpismo como uma peculiar guerra de classes com fundamento econômico e cultural.

Não é nada difícil apontar para as muitas contradições de um bilionário do setor imobiliário supostamente lutando a favor da maioria oprimida. Afinal, Trump não acabou de aprovar uma lei orçamentária com corte de impostos para os mais ricos cortando recursos direcionados ao setor de saúde? Sim, e essas contradições serão fortemente exploradas pela oposição nas eleições parlamentares e estaduais em 2026. Mas por mais que tais contradições sejam verdadeiras, elas também são racionalizadas dentro do trumpismo e não mudam o fato de que sua crença de representar um nacionalismo populista America First vai guiar as decisões deste governo.

Reconhecer essa visão de mundo, sem necessariamente concordar com ela, é hoje algo necessário para lidar e negociar com os EUA. Algumas abordagens terão mais chance de sucesso do que outras, como já evidenciamos nas recentes caóticas negociações sobre a questão tarifária. Vários países têm achado brechas para minimizar o dano efetivo.

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A sabedoria popular costuma dizer que a esperança é a última que morre. Na minha singela interpretação, digo: mas morre.

É nesse dilema que vivemos quando o assunto é a pavimentação do trecho do meio da rodovia federal BR-319, inaugurada em 1976, fechada em 1988 e reaberta em 2015.

Não faz muito tempo, a ministra do meio ambiente, Marina Silva, anunciou a criação de um grupo interministerial para coordenar um estudo sobre a viabilidade da estrada e apresentar direções sustentáveis para a sua trafegabilidade.

Não quero dar uma de rasga-mortalha, aquela coruja que ao gritar anuncia a morte, mas quando não se quer fazer uma coisa, é só inventar um estudo ou a criação de um grupo. Quando são os dois juntos, é embromação na certa.

Já foram gastos cerca de 111,5 milhões de reais em estudos sobre a flora, fauna, arqueologia e epidemiologia em área afetada pela 319. Só na parte ambiental, o Denit diz que em dez anos foram gastos 80 milhões de reais em estudos para realização das obras. Essa grana toda incluiu um EIA-RIMA, documento exigido para licenciamento dos trabalhos de pavimentação.

Cadê esses estudos? Não valem mais nada? E a responsabilidade administrativa de quem gastou 200 milhões de reais em estudos que não serviram para nada ou não trouxeram resultado?

Não acredito que a BR-319 venha a ter trafegabilidade digna até ano que vem. Só os novos estudos deverão durar oito meses. Este mês foi publicado no Diário Oficial da União a contratação de uma empresa para iniciar os estudos, porém, o tempo não para.

Na semana passada, o senador Omar Aziz conduziu uma caravana pela BR, para ver de perto as dificuldades enfrentadas pelas populações que moram no entorno da estrada e o sufoco dos motoristas que por ali trafegam. Com certeza, apenas confirmou o estado de abandono, com ausência de serviços públicos básicos e situação propícia para o domínio de todo tipo de crime.

Na contramão dos anseios dos povos do Amazonas e Roraima está um grupo reduzido de pseudo-ambientalistas, que defendem teses superadas, como a do santuário ecológico, para se contrapor à recuperação da BR-319. São teorias trazidas dos Estados Unidos, que resultaram em dramas sociais perversos na Amazônia. Defender o isolamento do Amazonas do restante do país em nome da preservação ambiental é um equívoco profundo.

A dignidade humana e os direitos humanos de bem viver exigem o reconhecimento de 4,6 milhões de brasileiros que querem a saída e a entrada terrestre dos seus estados. Que o Estado brasileiro garanta sustentabilidade ambiental e dê segurança às populações que moram no entorno da rodovia. Hoje, somente o crime organizado está por lá.

Têm estudos sobrando. O que falta é vontade política. Que o ministério do meio ambiente faça o seu trabalho e apresente, com brevidade, um plano de proteção da fauna e da flora do entorno da 319 e outros ministérios, das áreas social e de segurança, também apresentem seus planos de atendimento às populações locais, inclusive de combate à grilagem e ao desmatamento. Bora trabalhar. Nossa gente paga impostos. Somos brasileiros.

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*Lúcio Carril, Sociólogo

 
 
 

ADHEMAR BAHADIAN*


Até hoje me recordo da peça teatral “Galileo Galilei”, que assisti nos anos 60 do século passado, com Fauzi Arap, no Teatro Opinião.

Nela, em determinado momento, o personagem de Fauzi Arap, ao ser informado de que, diante de uma bofetada, o homem justo deveria responder oferecendo a outra face do rosto, num dos trechos mais fortes da dramaturgia, retruca: “Nada disto. Diante de uma bofetada deve-se reagir com uma montanha de bofetadas, com força muito maior do que a recebida” (a citação é de memória e o original é muito mais impactante, com a voz e a gesticulação de Fauzi).

Foi esta a lembrança que me veio ao ver, neste domingo na Avenida Paulista, a bandeira brasileira desfilar nos braços do povo em resposta ao espetáculo recente quando, na mesma avenida, se expôs o descalabro de se homenagear, como se colônia fossemos, a bandeira dos Estados Unidos da América.

Enganam-se os que atribuem a um movimento da esquerda a reação do povo brasileiro, cansado dos despautérios, cinismo e sem-vergonhice de parcela considerável da Câmara dos Deputados. Uma bofetada de Galileo, definitiva, máscula, irritada e sobretudo de reafirmação do povo brasileiro de sua soberania e, sobretudo, de sua dignidade.

A esta homenagem certamente se seguirá, nas eleições legislativas de 2026, um tsunami de rejeição pelo voto de tantas e tão abusivas reações covardes como a PEC da bandidagem e da Anistia.

O povo tomou a si a decisão de dar um “basta" a parlamentares que desonram o mandato popular ao se mostrarem lenientes com propostas que nos transformam numa republiqueta de servis servidores do domínio estrangeiro e, pior ainda, contrários ao respeito à Constituição de 1988, tratando-a como se fosse um pano de lixo.

Chega, Basta, não somos parvos nem idiotas para aceitarmos manobras pseudamente jurídicas tão ou mais vergonhosas que as emendas parlamentares e as barganhas de bastidores de procurar sabotar medidas de interesse popular, como as referentes à eliminação de imposto de renda para assalariados.

Todas essas medidas se revelam nitidamente como de natureza espúria e entreguista, e pretendem transformar o Brasil num boneco de piche do Trumpismo, onde só se beneficiam os super-ricos, embora com uma ode canhestra em defesa da Democracia.

Não há espaço no Congresso para defensores desta nova forma de recolonização do Brasil. Não há temor do povo brasileiro com as ameaças ao nosso desenvolvimento econômico e social.

Este domingo, 21 de setembro, certamente marcará o renascimento do povo brasileiro como guardião do nosso desenvolvimento econômico e social nos termos explícitos da Constituição brasileira. O povo brasileiro se revela constitucionalista até a medula, e reclama de nossas autoridades a apresentação de projetos e programas desenvolvimentistas. Sobre este último ponto, é de importância que se respeite a memória de JK que vem sendo citado por quem não parece respeitar que o maior legado que nos deixou JK foi o respeito à Democracia e aos direitos humanos.

Legado enxovalhado pela Ditadura dos anos 60 - e não apenas por ela -, inclusive com o cruel exílio politico imposto a JK.

Portanto, dobre a língua e dobre a própria coluna dorsal, quando dele falar, governador.

Esta semana, teremos ainda o discurso de Lula nesta terça-feira na ONU. Olhos e ouvidos nele. O Brasil tem uma mensagem de paz e uma convocação à ordem internacional e à paz.

E ASSIM SEGUIREMOS.

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*Adhemar Bahadian é embaixador aposentado.

 
 
 
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